| Bonaparte cruzando os Alpes (Bonaparte franchissant les Alpes) |
| Paul Delaroche, 1848 |
| óleo sobre tela |
| 279,4 × 214,5 cm |
| Walker Art Gallery (Liverpool) |
Bonaparte cruzando os Alpes (também chamado Napoleão cruzando os Alpes, apesar da existência de uma pintura homônima) é um tema de um conjunto de pinturas a óleo de 1848-1850 que retratam Napoleão Bonaparte,[1] realizado pelo artista francês Paul Delaroche.[2][3] A cena ilustrada mostra Napoleão montado numa mula, guiando o seu exército através dos Alpes,[I] uma viagem realizada na primavera de 1800,[4] na sua tentativa de surpreender as tropas austríacas em Itália.[5][6]
A obra foi inspirada na série de cinco pinturas de Napoleão cruzando os Alpes (1801-1805) realizadas por Jacques-Louis David. As obras de David também mostram a viagem de Napoleão pelo passo do Grande São Bernardo; no entanto, há importantes diferenças estilísticas entre ambas as concepções. O Napoleão de Paul Delaroche tem frio e está cansado, enquanto que o de David veste um uniforme pristino e é idealizado como herói. Delaroche dá uma imagem mas realista e mais humana, incidindo nos perigos da montanha e no olhar melancólico do líder.[7]
Apesar de a pintura ser uma das pioneiras deste novo estilo, a obra foi criticada por várias autoridades no tema. Os seus motivos eram variados: desde a representação da cena, até à desaprovação geral do próprio Delaroche. Muitos dos que aderiam a esta última opinião sentiam que Delaroche tinha tentado captar de algum modo o génio de Napoleão mas falhara na tentativa.[8]
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Como parte da sua campanha de 1798 durante as Guerras Revolucionárias Francesas, Napoleão preparou a invasão e conquista do Egipto, que nessa época era uma província do Império Otomano.[9] Essa acção militar prometia grandes benefícios, como por exemplo assegurar os interesses comerciais da França e impedir o acesso dos britânicos à Índia. Para o primeiro dia de Julho desse mesmo ano, Napoleão tinha desembarcado na costa egípcia.[10] No entanto, depois de uma prolongada cadeia de conflitos que resultaram em enormes perdas, a campanha acabou com a vitória otomano-britânica e Napoleão regressou à França.
Em 1799 inicia-se, com o golpe de estado de 18 de Brumário, a ditadura napoleónica. Preparou-se uma reforma constitucional e tomaram-se medidas para assegurar a ordem social em França, acompanhando as medidas na economia com o desterro dos jacobinos. Bonaparte aumentava por via destas medidas a sua popularidade mas também graças às suas contínuas aparições públicas, exercendo o papel de salvador da pátria.
Entretanto as forças austríacas tinham voltado a tomar a Itália, beneficiando da dispersão do exército francês no norte de África. Para recuperar a sua vantagem, em 1800 Bonaparte planeou lançar um assalto de surpresa ao exército austríaco destinado à República Cisalpina. Baseado no pressuposto de que os austríacos jamais esperariam que o grande exército napoleónico fosse capaz de atravessar os Alpes, optou por tomar essa rota,[11] escolhendo o passo de montanha mais curto (o Passo do Grande São Bernardo), que lhe permitiria alcançar o seu destino tão rapidamente quanto possível.[12][13]
Em 15 de Maio de 1800, Napoleão e o seu exército de 40 000 homens (sem incluir a artilharia de campanha e os vagões de carga, 35 000 na artilharia ligeira e infantaria, e 5 000 de cavalaria) começaram a árdua viagem pelas montanhas.[14][15][16][II] Durante os cinco dias que demorou a passagem, o exército napoleónico consumiu quase 22 000 garrafas de vinho, mais de uma tonelada e meia de queijo e cerca de 800 kg de carne.[14]
Depois de cruzar os Alpes, Napoleão começou as operações militares contra o exército austríaco. Apesar do começo pouco auspicioso da campanha, as forças austríacas foram obrigadas a retroceder até Marengo (junto de Alessandria, no Piemonte) depois de quase um mês. Aí foi onde em 14 de Junho teve lugar uma grande batalha que acabou com a retirada dos austríacos da península italiana.[1] Embora o exército de Napoleão resultasse vitorioso, foi o que sofreu mais baixas: aproximadamente 1 100 face às 960 dos austríacos.[III]
Os primeiros trabalhos de Paul Delaroche foram baseados no Antigo Testamento, mas pouco a pouco o seu interesse foi variando para cenas da história inglesa e francesa.[17] Ele «combinava a sua habilidade para as cores com o seu interesse em cenas particulares da história.»[18] Bonaparte cruzando os Alpes, que foi pintada apenas oito anos antes da morte de Delaroche, exemplifica este período na sua carreira.
Delaroche (cujo verdadeiro nome era Hippolyte e não Paul, que escolheu para se distinguir do pai) recebeu de Arthur George, 3º conde de Onslow, coleccionador de artigos relacionados com Napoleão, a comissão de pintar um retrato realista.[1][19]
Paul Delaroche, que já havia retratado Napoleão segundo os preceitos do realismo, repetiu o tema algumas vezes, pintando obras muito semelhantes. Duas das versões mais conhecidas desta obra são as que estão em Paris no Museu do Louvre,[7] de 1848 e com 289 × 222 cm, e em Liverpool na Walker Art Gallery,[20] de 1850 e com 279,4 × 214,5 cm. A Rainha Vitória tinha uma versão do quadro de menor dimensão.[21]
Deixando de lado a encomenda, Delaroche inspirou-se para criar esta obra devido ao que sentia: que ele se parecia com Napoleão e que os seus feitos eram comparáveis com os deste.[2] É provável que a pintura de Delaroche seja precisa historicamente; os pormenores como as vestes de Napoleão parecem ter sido investigados pelo artista no seu esforço por lhe conferir autenticidade.[8]
Arthur George, 3º conde de Onslow, encomendou a realização da pintura logo que ele e Delaroche visitaram o Louvre em Paris, onde viram a versão de David. A obra tinha voltado a ser exposta há pouco tempo, depois de uma renovação do interesse em Napoleão, quase 40 anos depois do seu exílio.[IV] George, que tinha uma colecção considerável de parafernália napoleónica, achava tal como Delaroche que a pintura não reflectia a realidade e encarregou a criação de uma representação mais realista.[22]
O contraste entre a representação de Jacques-Louis David da mesma cena (de Napoleão atravessando os Alpes a caminho de Itália), que foi um retrato solicitado pelo rei de Espanha[23][V] para dar a Napoleão[24] de presente, e a representação de Delaroche em Bonaparte cruzando os Alpes é evidente.
A primeira e mais importante diferença está em Napoleão, nas suas vestes e em seu tamanho. David mostra Napoleão vestido com um uniforme colorido e imaculado, acompanhado por uma capa estendida. Por outro lado, a versão de Delaroche apresenta Napoleão com um casaco cinzento bastante comum que tem o único propósito de manter afastado o frio mais que mostrá-lo como o símbolo que podia ter representado: o de um líder militar poderoso e galante, que é a impressão que se recebe da versão de David.
No entanto, existe outra diferença significativa no mesmíssimo Napoleão, no seu estado mental. O Napoleão de David é exuberante,[24] seguro da sua liderança do exército francês e da sua capacidade para cruzar os Alpes e derrotar os austríacos em Itália. Por outro lado, o de Delaroche está cansado e amargurado pelo cruel frio; os olhos e a cara inexpressiva evidenciam o seu cansaço, o seu esgotamento como resultado de uma longa e instável viagem.
A última diferença de importância (deixando de lado o verdadeiro cenário, os homens que se pode ver à distância etc.) é em relação ao animal que Napoleão monta. Na versão de David, Napoleão está sobre um corcel grande e forte de larga crina; esta questão na versão de David é irrefutavelmente falsa: é sabido que Napoleão montou uma mula durante a travessia (a qual tomou emprestada de um camponês local),[1] e não um cavalo.[15][25] A presença de um cavalo em lugar de uma mula foi um dos principais motivos de crítica formulados por Delaroche em relação à versão de David e a base da sua afirmação quanto a Bonaparte cruzando os Alpes, onde há uma mula, e é uma representação mais realista da cena.
Na obra pode apreciar-se Napoleão vestindo roupas apropriadas para a circunstância: por cima do seu uniforme enverga um sobretudo que o envolve firmemente, no qual mantém abrigada a sua mão direita, sem luvas, conservando uma réstia de dignidade graças ao bicorne de borde dourado que usa na cabeça.[19] A mula sobre a qual viaja está subnutrida, cansada pelo seu calvário através dos Alpes. À esquerda da mula aparece o seu guia, Pierre Nicholas Dorsaz,[11][26] que deve seguir adiante e fazer avançar a mula, e se apoia pesadamente sobre o bastão a que se agarra com a sua mão esquerda para continuar; as suas vestes estão gastas pelo clima; o seu rosto, vermelho do frio. Não tem o luxo de viajar montado num animal já que deve deslocar-se independentemente sobre o terreno. Podem ver-se outros membros do séquito de Napoleão um pouco atrás dele; as suas figuras robustas acentuam a fragilidade de Bonaparte.[19]
Os elementos pertencentes ao frio e duro ambiente dos Alpes são evidentes: as montanhas distantes cobertas de neve erguem-se atrás de Napoleão e companhia, enquanto que à sua esquerda aparece uma ravina, e o caminho sob os seus pés tem uma espessa camada de neve.
Napoleão aparenta encontrar-se no mais alto das montanhas, e parece ser um homem mortal e em perigo. Embora em certo sentido isto pareça diminuir a figura de Napoleão (e contrastar em extremo com a versão de David, que o mostra imune ao frio e sob uma luz heróica), a obra de Delaroche não pretendia retratá-lo de um modo hostil ou impróprio. Delaroche desejava representar Napoleão como um homem de carne e osso (e não como um monarca taumaturgo como acontece na obra Bonaparte visitando as vítimas da peste de Jaffa de Antoine-Jean Gros), optando por representar um homem que também sofria e passava por penúrias em suas façanhas mais ousadas. Sentiu que mostrando-o tal como deveria ter estado nessas circunstâncias não se separaria em absoluto do seu estatuto como ícone nem do seu legado, mas que o transformava numa pessoa ainda mais admirável.[2]
Juntamente com a massa branca que se pode ver atrás de Napoleão, o brilho âmbar do Sol, proveniente do lado oeste em relação à posição do grupo de Napoleão, é a fonte de luz central na pintura. Unida com as sombras, esta produz contraste, e, por meio da iluminação, enfatiza os aspectos chave da cena; isto pode apreciar-se particularmente na luz que cai sobre o peito de Bonaparte.[19] Napoleão e a mula que monta têm uma textura muito rica visualmente devido ao contraste de luz e sombra, tal como o guia que conduz à mula. As camadas de gelo e neve também aparecem ainda mais brancas pela luz solar do oeste, iluminando toda a cena. No entanto, a saliência à esquerda do guia e as patas da mula produzem sombras que equilibram a iluminação do quadro.
O esquema e tons de textura que Delaroche utiliza nesta pintura são bastante pormenorizados e estudados, em especial em relação às figuras mais importantes; este aspecto da obra foi descrito como sendo «…representado com uma fidelidade que não omitiu as rugas do vestuário, a textura peluda do quadrúpede, nem o pormenor no arnês nem as suas espaldas.»[8] A pelagem da mula foi texturada intensamente e pintada em pormenor para que parecesse dura e hirsuta à vista, e a própria mula extenuada pelo cansaço. A mesma técnica se aplicou aos adornos vermelhos e amarelos que cobrem e pendem do animal.
O pormenor central em Napoleão aplica-se ao seu casaco, nas suas pregas e rugas. Grande parte do pormenor e da diversidade das texturas concedem-se também ao guia, em particular a seu rosto, à sua túnica verde sacudida pelo vento, e às suas botas de couro.
O cuidado no pormenor e a precisão literal que Delaroche pôs nesta pintura evidenciam e mostram a lenta mas firme evolução do realismo dentro da arte durante o século XIX, e como começou a crescer a sua popularidade.[1]
A obra, pese a tentativa de mostrar Napoleão de forma realista, foi criticada por várias autoridades no tema devido a múltiplas razões. Alguns desaprovavam a eleição da cena, enquanto que outros criticavam directamente Delaroche dizendo, em certo modo, que pretendeu imitar o génio de Napoleão sem o conseguir.[8]
Pouco depois de estar terminado, o quadro foi levado a Inglaterra e aí, em 1850, o crítico da Athenaeum,[VI] uma revista literária, escreveu uma resenha.[27] Os comentários efectuados pela revista sobre a obra indicam que, apesar de elogiar a pintura em várias das suas características, Delaroche era criticado por vários motivos:
Um oficial com traje francês montado sobre uma mula é conduzido por um camponês tosco através de um perigoso passo de montanha cujo rasto apenas é discernível no meio da neve; e este ajudante de campo só é visível num barranco dos imponentes Alpes. Estes feitos foram representados com uma fidelidade que não omitiu as rugas das roupas, a textura peluda do quadrúpede, nem o pormenor no arnês. O amontoado de neve, o solitário raio de sol num momento passageiro, tudo foi dotado de uma verosimilhança que resultará adorável para quem exalta a Escola Holandesa pelas suas características similares na mais absoluta excelência. Mas será em vão a busca de M. Delaroche do nobre e ousado génio que levou o humilde tenente de Ajaccio a converter-se em senhor e árbitro do destino da maior parte da Europa.[8]
Algumas pessoas ficaram desapontadas com as obras de Delaroche em geral e, em particular, com Bonaparte cruzando os Alpes, criticando o que foi descrito como o seu «baixo nível artístico.» Entre tais críticas se inclui The Gentleman's Magazine, onde se publicou o seguinte texto:
Tudo revela uma modificação no seu estilo, mas não uma que seja feliz. As suas obras mais recentes não estão calculadas para recuperar a simpatia que tinha perdido. Deve-se confessar que Delaroche é um artista talentoso mais que um génio. A sua educação e dedicação pelo estudo acreditam-no como pintor, mas não como artista no verdadeiro sentido da palavra. Fracassou na missão de todo o artista: fazer avançar a educação das massas; quando esteve em seu poder impulsionar, cedeu; foi um reflexo, mas não uma luz; e em lugar de elevar o público até à sua obra, baixou-a até ao público.[28]
Não é claro se Delaroche perdeu a simpatia que tinha ganho pelo seu encarceramento ou pela sua nomeação como Primeiro Pintor, mas parece que The Gentleman's Magazine não sentia que o pintor estivesse a trazer nada de novo ao espectro artístico com o seu emprego do realismo dentro da pintura.