Escultura da Roma Antiga

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A escultura da Roma Antiga desenvolveu-se em toda a área de influência romana, com seu foco na metrópole, entre os séculos VI a.C. e V d.C.. Em sua origem derivou da escultura grega, primeiro através da herança etrusca, e logo diretamente, pelo contato com as colônias da Magna Grécia e com a própria Grécia, durante o período helenista. A tradição grega permaneceu uma referência constante ao longo de toda a trajetória da arte escultórica em Roma, mas contradizendo uma antiga e generalizada opinião de que os romanos foram apenas meros copistas, hoje se reconhece que foram capazes não só de assimilar e elaborar suas fontes com maestria, mas também de dar importante contribuição original a essa tradição, visível em especial na retratística, gênero que gozou de prestígio singular e deixou exemplos de suma perícia técnica e elevada expressividade, e na escultura decorativa dos grandes monumentos públicos, onde se desenvolveu um estilo narrativo de grande força e caráter tipicamente romano.[1][2]

Depois da consolidação do império, outras influências estrangeiras, mormente orientais, determinaram um progressivo afastamento do cânone grego em direção a uma simplificação formal de tendência abstrata, que estabeleceu as bases da arte bizantina, paleocristã e medieval. Esse processo, não obstante, foi entremeado de diversos períodos de revivescência classicista, que além de fortalecerem o elo simbólico com o passado foram úteis na manutenção da coesão política e cultural do vasto território. Nem mesmo a cristianização do império pôde determinar a exclusão das referências clássico-pagãs da escultura romana, e até o século V, quando a unidade política se rompe definitivamente, modelos clássicos ainda continuavam sendo emulados, embora adaptando-se aos temas próprios da nova ordem social, política e religiosa que se instaurava.[3][4]

Mesmo que este resumo tente se manter em uma cronologia mais ou menos ordenada e procure estabelecer a especificidade de cada fase, o estudo da escultura romana tem-se provado um desafio para os pesquisadores por sua evolução ser tudo menos linear e lógica. Tentativas de impor um modelo de desenvolvimento formal como um sistema orgânico sobre a história da escultura romana se mostraram inacuradas e irreais. Apesar das divergências entre os estudiosos sobre muitos pontos, já se tem uma idéia mais ou menos clara sobre as características gerais de cada etapa evolutiva, mas o modo como elas evoluíram e como se transformaram de uma para outra evidenciou ser um processo muito complexo que ainda está longe de ser bem compreendido. Uma duradoura inclinação para o historicismo e o ecletismo, ainda mais pronunciada do que a que se observou durante o Helenismo, junto com a presença de estilos bem diferenciados na escultura produzida num mesmo momento histórico para as diferentes classes sociais, e mesmo dentro de uma única classe, atendendo a necessidades de cada tema e situação, tornam o assunto ainda mais intrincado.[5]

Além do grande mérito intrínseco da produção escultórica romana, o hábito generalizado da cópia de obras gregas mais antigas e a permanência de alusões ao classicismo grego ao longo de toda sua história, mesmo através do Cristianismo primitivo, manteve vivas uma tradição e uma iconografia que de outra forma poderiam ter-se perdido. Devemos a Roma, assim, boa parte de nosso conhecimento da cultura e da arte da Grécia Antiga, e mais, a escultura romana - junto com a grega - teve fundamental importância na formulação da estética do Renascimento e do Neoclassicismo, atestando sua vitalidade e significância até nos tempos modernos, além de ser considerada hoje como um dos corpos artísticos mais importantes da cultura ocidental, como o provam a imensa quantidade de estudos especializados de que é objeto e o fascínio que ainda exerce sobre o grande público.[6]

Índice

[editar] O papel da escultura na sociedade romana

Reconstrução conjetural da Via Appia, na antiga Roma

Roma foi uma sociedade eminentemente visual. Com a maior parte de sua população analfabeta e incapaz de até falar o latim erudito que circulava entre a elite, as artes visuais funcionaram como uma espécie de literatura acessível às grandes massas, confirmando ideologias e divulgando a imagem de personalidades eminentes. Nesse contexto, a escultura desfrutou de uma posição privilegiada, ocupando todos os espaços públicos e privados e povoando as cidades com inumeráveis exemplos em várias técnicas. Boa parte da escultura produzida em Roma pertence à esfera religiosa ou está a ela relacionada de alguma forma. Até mesmo os retratos tinham frequentemente associações com o sagrado, e assim como em todas as culturas, Roma não divergiu na prática de produzir imagens propriamente de culto, que estavam presentes desde os grandes templos públicos até a mais modesta das habitações. Não só os grandes gêneros escultóricos em bronze e mármore se tornaram comuns - a estatuária, os grandes sarcófagos, os relevos arquiteturais, os camafeus gravados em pedras preciosas - mas mais ainda as estatuetas em terracota, as placas funerárias simples, as máscaras mortuárias em cera, cujo custo estava dentro do alcance das classes mais baixas, e sem falar nas moedas, que podem ser vistas como um gênero de relevo em miniatura e estavam espalhadas até entre a massa do povo.[7] Jaś Elsner diz que

Lar romano, século I d.C.
Museu do Prado
"Tais imagens, encontrando os súditos imperiais em todas as formas de suas vidas sociais, econômicas e religiosas, contribuíam para construir uma unidade simbólica entre os povos diversificados que compunham o mundo romano, concentrando seu senso de hierarquia em um indivíduo supremo. Quando um imperador morria, seus herdeiros podiam louvar suas estátuas como as de um deus - proclamando uma continuidade na sucessão e erguendo templos em sua honra. Quando um imperador era derrubado, suas imagens era violentamente erradicadas numa damnatio memoriae, uma abolição de toda lembrança sua, que informava à população visual e convincentemente das mudanças na autoridade política maior. (…) O antigo politeísmo não era uma religião de escrituras e doutrinas, sob a estrutura de uma igreja hierárquica e centralizada, e sim antes era um conglomerado de lugares de culto, rituais e mitos, administrados pelas comunidades e muitas vezes por sacerdotes hereditários. Era eclético e diversificado, amplo, pluralista e tolerante. Assim as imagens e mitos forneciam as principais formas da "teologia" no mundo antigo".[8]

Quando o Cristianismo se tornou a religião oficial, o papel da arte mudou radicalmente, embora não tenha perdido sua importância central. O deus cristão não era conhecido através de imagens, mas de escrituras e seus profetas e comentadores. Mesmo assim, a escultura e seu repertório de representações naturalistas convencionais foi adotada pela igreja nascente para composição de alegorias e continuou sendo praticada na esfera laica pública e privada como decoração, registro histórico e para o retrato até a ruptura final do império, ainda como uma forma enfatizar a herança clássica compartilhada por todos e a fim estabelecer unidade cultural num período em que as periferias começavam a desenvolver culturas próprias com largo grau de independência e se tornava cada vez mais complicada a tarefa de manter o território unificado.[9]

[editar] Antecedentes

O Ipogeo dei Volumni, em Perugia, arte etrusca da transição para o domínio romano
O Apulu de Veii, terracota, Veii

A origem de Roma é controversa, provavelmente tenha sido fundada em meados do século VIII a.C. por uma mistura de povos itálicos que viviam na região do Lácio desde o século X a.C. Alguns defendem a tese de que foi fundada pelos etruscos, que viviam ao norte, e o mito diz que a sua fundação se deve a Rômulo e Remo, descendentes de Enéias, herói de Troia.[10] Outras evidências sugerem fortemente a presença de levas de imigrantes transalpinos, os celtas e germânicos, que teriam deixado seus traços físicos em algumas famílias da aristocracia romana, como os Flávios (nome que significa louro), e sido a causa da presença de nomes como Rufus e Rutilius (ruivo e arruivado, respectivamente) num povo de tez basicamente morena.

[editar] A tradição etrusco-romana

Entre os séculos VII a.C. e VI a.C. os etruscos dominaram a região centro-norte da península Itálica, e pelos menos alguns dos semi-legendários reis de Roma foram etruscos. Sua arte, que já era em larga medida uma interpretação do estilo grego arcaico, passou a ser a arte dos romanos. Assim como fariam mais tarde com a arte grega, os romanos não apenas copiaram os modelos formais etruscos, mas em suas guerras com eles se apropriaram de suas obras de arte e as levaram para adorno da sua própria capital. As primeiras esculturas realizadas em Roma de que se tem notícia datam do século VI a.C. e seu estilo é inteiramente etrusco. O célebre Apulu de Veii, dessa época, nos dá uma boa informação sobre as tendências estéticas vigentes então. Os etruscos foram hábeis em vários gêneros escultóricos, desde a estatuária fúnebre e sarcófagos até grupos monumentais, e em muitos pontos anteciparam a estética do prosaico que os romanos desenvolveriam mais tarde. Foram mestres nas "cenas de gênero", retratando a vida comum, pessoas do povo em atividades características, e também no retrato se mostraram artífices de primeira ordem. Mas talvez onde tenham sido mais originais foi na arte fúnebre. Desenvolveram uma tipologia específica para as urnas funerárias, consistindo de uma caixa decorada com relevos e fechada por uma tampa sobre a qual se apresentava um retrato reclinado do morto, de corpo inteiro, às vezes acompanhado de seu cônjuge, modelo que os romanos adotariam em muitos de seus sarcófagos. O Sarcófago dos Esposos, hoje no Museu Nacional Etrusco, e o Hipogeu dos Volumni, uma cripta em Perugia com vários sarcófagos, são exemplos bem conhecidos. A despeito do progressivo abandono da tradição etrusca durante a fase helenista que viria a seguir, traços dela ainda seriam encontráveis até mesmo na época de Augusto.[11][12]

[editar] Helenismo e Neoclassicismo

Enquanto isso a Grécia evoluía para o seu Classicismo, cujo apogeu se verificou no século IV a.C. Nessa altura Roma inicia sua expansão para o sul, já independente dos etruscos depois de quase uma centúria despendida em lutas para obter a supremacia regional, entrando em contato mais íntimo com a arte grega através das colônias da Magna Grécia, cuja cultura sofisticada impressionava os romanos. Logo, nobres de Roma passaram a desejar obras gregas em seus palácios, e se contratam artífices gregos para realizarem cópias das composições mais celebradas, às vezes pagando preços fabulosos por elas.[13]

Um pouco mais tarde, Alexandre Magno conquistou a Grécia e levou a arte grega até os confins da Índia, passando pela Pérsia e chegando também ao Egito. O impacto desta expansão teve dois sentidos, um sobre os povos conquistados, definindo novos rumos para sua cultura e arte, e outro reverso, sobre a própria cultura grega, que assimilou uma diversidade de elementos orientais. Com a fragmentação do império alexandrino após a morte do conquistador, formaram-se vários reinos de raiz local - Bitínia, Galácia, Paflagônia, Ponto, Capadócia, o Egito dos Ptolomeus - mas que incorporavam novos costumes gregos, evoluindo então de maneira própria. A esta fusão de influências gregas e orientais se deu o nome de Helenismo. O interesse pelo passado foi uma característica distintiva do período. Fundaram-se os primeiros museus e bibliotecas, como em Pérgamo e em Alexandria, surgiram biografias dos artistas mais notados, a crítica de arte se desenvolveu e viajantes descreveram a geografia, história e costumes de várias regiões nos primeiros roteiros turísticos jamais escritos.[14]

Pseudo-Sêneca, século I a.C., cópia de original helenístico do século II a.C. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles
Hércules Capitolino, classicista, século II a.C. Museus Capitolinos

O historicismo do período fez com que vários estilos anteriores fossem emulados em uma síntese eclética, mas com uma progressiva secularização na temática e uma preferência por obras dramáticas e movimentadas, cuja intensa expressividade é comparada por alguns com o estilo Barroco. A infância, a morte e a velhice, e mesmo o humor, temas quase sem precedentes na arte grega clássica, foram introduzidos e largamente cultivados. Desenvolveu-se também entre as elites de vários países um febril gosto pelo colecionismo de obras de arte, onde os romanos se revelariam os mais entusiastas.[15][16][17][18]

Em 212 a.C., os romanos conquistaram Siracusa, uma rica e importante colônia grega na Sicília, adornada com uma profusão de obras de arte helenística. Tudo foi saqueado e levado a Roma, onde substituiu a escultura de linha etrusca que ainda era cultivada. O saque de Siracusa foi o impulso final para o estabelecimento definitivo do padrão grego no próprio coração da República, mas não deixou de encontrar oposição. Marco Pórcio Catão denunciou o saque e a decoração de Roma com as obras helênicas, considerando isso uma influência perigosa para a cultura nativa, e deplorava que os romanos aplaudissem as estátuas de Corinto e Atenas e ridicularizassem a tradição decorativa em terracota dos antigos templos romanos. Mas foi em vão. A arte grega havia subjugado a etrusco-romana no gosto geral, a ponto de as estátuas gregas estarem entre as mais cobiçadas presas de guerra e serem exibidas destacadamente nos cortejos triunfais de todos os generais conquistadores. No triunfo de Lúcio Emílio Paulo Macedônico após a conquista da Macedônia em 168 a.C. desfilaram duzentas e cinquenta carroças cheias de estátuas e pinturas, e na conquista da Aquéia em 146 a.C., que decretou o fim da independência grega e sua submissão ao império romano, Plínio, o Velho, diz que Lúcio Múmio Acaico literalmente encheu Roma de esculturas.[19] Logo em seguida, em 133 a.C., o império recebeu em herança o reino de Pérgamo, onde havia uma florescente e original escola de escultura helenística.[20]

Kleomenes: Marcellus, século II-I a.C. Museu do Louvre

Nessa altura a demanda por estatuária já era enorme e em Atenas as oficinas de escultura trabalhavam praticamente apenas para os connoisseurs romanos, que demonstravam seu gosto apurado solicitando obras que imitassem a produção classicista dos séculos V e IV a.C., evitando os exageros expressivos do helenismo posterior, formando-se uma escola revivalista a que se chamou Neo-Ática, que depois continuou a prosperar na própria Roma até o século II d.C. A Escola Neo-Ática representa o primeiro aparecimento na história de um movimento que pode legitimamente ser chamado de neoclássico.[21]

Quando por algum motivo era impossível obter originais, especialmente no caso de obras já celebrizadas, se realizavam cópias em mármore ou bronze, mas ao que parece os romanos não faziam uma distinção valorativa ou estética importante entre um original e uma cópia, como hoje é comum. Dentre todas as centenas de modelos existentes na produção grega, os romanos favoreceram apenas cerca de cem, que foram copiados em larga escala, estabelecendo uma padronização da imaginária. Hoje essa repetitividade soa como monotonia, mas para a cultura da época estabelecia laços positivos com linhagens simbólicas e ideológicas prestigiadas.[22]

Em outros casos as adaptações eram mais livres, e tinham um caráter de pastiche, usando elementos de peças variadas para a criação de uma obra nova, ou transformando estátuas de deuses em retratos romanos, com a cópia exata do corpo de uma criação famosa, mas trocando-se a cabeça pela de alguma personalidade romana. Exemplo deste hábito é a bela estátua de Marcus Claudius Marcellus[desambiguação necessária] preservada no Louvre, realizada por Kleomenes no século I a.C. a partir de um original grego representando Hermes Logios (Mercúrio orador) de 400 anos antes, possivelmente de Fídias. Afortunadamente para nós contemporâneos, a prática da cópia servil de muitas obras-primas gregas pelos romanos foi a responsável pela preservação de uma vasta iconografia clássica e helenista cujos originais acabaram perdidos na Idade Média.[23] Dos artistas ativos nesse momento poucos nomes são lembrados, e como não existia ainda uma escola nativa, todos são gregos: além do citado Kleomenes, Aristéas e Pápias de Aphrodisias, autores de magníficos centauros hoje nos Museus Capitolinos, e Pasíteles, que fundou uma escola eclética em Nápoles.[24]

[editar] Ensaios para uma escola nacional de escultura

Uma mudança na tendência anterior puramente grega em direção à formação de uma escola de escultura nacional acontece entre fins do século II a.C. e o início do século I a.C. Um bom exemplo é o belo Altar de Ahenobarbus, considerado um precursor imediato da grande arte imperial do século de Augusto. Criado como uma oferenda de Cneu Domício Ahenobarbo no encerramento da campanha militar em Brundisium, foi instalado diante do templo de Netuno que ele havia mandado construir na mesma ocasião. O altar foi decorado com diversos frisos, alguns com cenas mitológicas mais ou menos convencionais e comuns na tradição grega, mas um deles é uma cena de culto, representando um sacerdote preparando um sacrifício, ladeado pelo ofertante, soldados e outros atendentes, que já evidencia a transferência do estilo classicista tradicional para um modo narrativo tipicamente romano, numa crônica da vida cotidiana e ao mesmo tempo dos sucessos de seu modelo político.[25]

Cena de sacrifício do Altar de Ahenobarbus, século I a.C. Museu do Louvre

Com Augusto, Roma se tornou a cidade mais influente e rica do império, resplandecente de mármores, e também o novo centro da cultura helenística, como haviam sido antes dela Pérgamo e Alexandria, atraindo para si uma multidão de artífices gregos. E assim como os sucessores de Alexandre haviam contribuído para dar uma sobrevida à arte grega, enriquecendo-a com novos temas, agora, quando se chega à Era Augusta, Roma daria sua contribuição própria e original para a continuidade e renovação de uma tradição que já prestigiava há séculos e havia ditado o caráter de toda arte produzida ali. Mas mais do que a mera transferência do foco cultural para Roma, o que determinou uma mudança na arte até então puramente grega e o aparecimento de uma escola genuinamente romana foi a formação da própria idéia de Império e a aplicação da técnica grega para a temática típica dessa nova Roma.[26]

Aureus mostrando Augusto laureado e Tibério em uma quadriga, c. 13-14 d.C.

Na consolidação do império teve grande importância a cunhagem de moedas, que são em verdade baixos-relevos diminutos. Júlio César legalizara em Roma uma prática helenista e oriental de imprimir a efígie do governante vivo nas moedas correntes, quando até então apareciam apenas imagens de deidades ou figuras históricas já falecidas, e Augusto dirigiu essa prática com ainda maior consciência e pragmatismo político, impondo sua presença visível e a mensagem do governo na vida diária de todo cidadão até nos confins do império, e exemplificando como a arte e a agenda política podiam unir forças para assegurar um sistema de controle social em larga escala. Tal uso exerceria uma pressão sobre a sociedade difícil de estimar hoje em dia, bastando dizer que corriam anedotas sobre a inaceitabilidade de moedas que mostrassem a imagem de imperadores odiados como Nero.[27][28]

Tellus Mater, fragmento da Ara Pacis
Procissão, fragmento da Ara Pacis
O genius de Augusto, Museu Pio-Clementino

O primeiro grande monumento da escultura imperial foi a Ara Pacis (32 a.C.), que também foi uma obra-prima da arquitetura romana. Dedicada à deusa Pax, comemorou o retorno bem sucedido do imperador de uma dupla campanha militar na Gália e na Hispânia. O monumento foi decorado com frisos e relevos mostrando procissões, cenas alegóricas da mitologia e sacrifícios. Numa das cenas está representada Tellus, a Mãe Terra, que é uma interpretação bastante diferente da sua contraparte grega Gea. Aqui ela não personifica uma força violenta e irracional da Natureza, como se via nos vasos e frisos gregos, mas é uma imagem delicada e realmente maternal de proteção e nutrição. Outras cenas fazem menção enfática aos benefícios da Pax Augusta, e fornecem uma visão clara dos valores que naquele momento apareciam aos romanos como verdadeiros - que somente a prosperidade material proporcionada por um Estado forte e pacífico poderia impulsionar um desenvolvimento consistente na cultura e na arte - uma idéia repetidamente afirmada na poesia laudatória do período.[29] Além disso, Eugénie Strong afirma que neste imenso altar aparecem pela primeira vez na arte grupos onde tanto protagonistas como espectadores participam da mesma cena, mas acrescenta:

"Um estudo demorado dos relevos da Ara Pacis tende a evidenciar que estamos em presença de uma arte em estado embrionário, ainda longe da maturidade; o escultor é herdeiro da vasta experiência da arte helenística, mas ainda não aprendeu a selecionar ou condensá-la. Ele parece oprimido pela novidade e magnificência de seu tema, e, na indecisão sobre como deveria representá-lo, tenta um pouco de tudo. Mas é uma tentativa válida, e a partir dela, em mais um século de prática, veremos os triunfos da arte Flaviana. Os artistas da Era Augusta não são nem acadêmicos nem decadentes, nem tampouco imitadores servis. Eles são pioneiros trilhando caminhos novos que precisarão de mais cem anos para serem plenamente explorados".[30]

Se em termos puramente artísticos a maturidade ainda devia esperar algum tempo para florescer, em termos ideológicos, como se viu, os trabalhos já estavam bastante adiantados. Augusto se mostrou um governante capaz, e contava com o apoio do povo. Desde seu primeiro consulado, acumulou honras sobre honras até ser-lhe oferecido o Império pelo Senado e o status de Augusto - na verdade originalmente um título e não um nome, significando "divino" - a pedido do povo. Seu reinado foi um período de relativa paz e prosperidade. Organizou seu país e fomentou as artes, não sem se aproveitar delas para promover sua imagem pessoal, como era um uso generalizado entre os poderosos. Sobrevive grande quantidade de estátuas do imperador nos museus do mundo, mostrando-o com uma variedade de atributos, militares, civis e divinos. Uma das mais célebres é o Augusto de Prima Porta, que é na verdade uma elaboração sobre o Doríforo de Policleto, mostrando que, a despeito de sensíveis mudanças na cultura de seu tempo, a tradição grega continuava a ser venerada e modelos antigos copiados, tanto por suas qualidades intrínsecas como por representar para a cultura romana uma paternidade que emprestava maior dignidade à nova condição imperial de Roma, com a figura do imperador como o maior de todos os mecenas e heróis.[31][32][33]

Mas a opinião de Strong não é consensual. Outros consideram a Dinastia Julio-Claudiana como um período de grandeza para a arte romana. Os aspectos que a autora considera indicativos de uma fase de incerteza estética - o próprio espírito de pesquisa em várias frentes, buscando novos efeitos de luz e de tratamento de superfície, novas formas de criar um sentido narrativo eficiente, estudando a Natureza com redobrada atenção e tentando solucionar problemas de representação de grupos em perspectiva - são também apontados como sinais da consolidação de uma autêntica escola nacional de escultura, uma impressão que se fortalece quando observamos as conquistas no terreno da retratística que vinham acontecendo de fato desde a República. Entretanto, é certo que a influência da Escola classicista Neo-Ática continuava forte, e modelos gregos idealizados continuaram a ser favorecidos para a divulgação da majestade imperial, combinados a um gosto pela verossimilhança que estabeleceu um padrão inovador seguido por muitos anos à frente.[34]

[editar] Apogeu da escultura romana

[editar] Bustos e estatuária

O retratismo é onde Roma dá sua contribuição mais característica à longa tradição fundada pelos gregos, uma contribuição que amadureceu bem antes do que nos outros gêneros escultóricos e que faz o desenvolvimento da escultura em Roma dividir-se em dois campos, com ritmos evolutivos diferenciados - a retratística e os gêneros restantes. Desde o período da República o retrato vinha sendo muito valorizado e ao longo do tempo oscilou ciclicamente entre uma tendência classicista idealizante e outra de grande realismo, derivada em parte da expressividade típica da arte helenista. E dentre os retratos, o busto e a cabeça avulsa eram as formas mais encontradas. Retratos de corpo inteiro eram menos comuns, embora não raros. A preferência pelo busto e a cabeça apenas é um traço cultural tipicamente romano que criou um enorme mercado em toda orla do Mediterrâneo, e se explica primeiro por razões econômicas, sendo muito mais baratos que uma estátua completa, mas também pelas convenções acerca da identificação individual que prevaleciam entre eles. Para os romanos não era o corpo nem os trajes ou atributos acessórios o centro do interesse na retratística, mas a cabeça.[35][36] Robert Brilliant diz que

Detalhe de um busto de Catão, c. 80 a.C. Palazzo Torlonia
Bustos fúnebres de Publius Aidius e Publia Aidia, século I d.C. Pergamon Museum
"a identidade específica do sujeito, estabelecida pelos traços particulares da cabeça, vinha sendo concebida como um apêndice simbólico que não levava em conta a integridade do corpo. Parece que os escultores criavam a cabeça como a principal chave para a identificação, e a inseriam num ambiente bem orquestrado semelhante em concepção, se não em intento, aos cenários prontos com uma abertura para o rosto, comuns entre os fotógrafos do início do século XX. De fato, as inúmeras estátuas togadas acéfalas que sobrevivem da antiguidade são análogas a cenários sem atores, ainda mais quando o corpo era feito pelos assistentes de antemão, à espera da cabeça esculpida pelo mestre-escultor".[37]

Com a ascensão de Vespasiano, fundador da Dinastia Flaviana, o estilo misto de idealismo e realismo praticado pelos artistas Júlio-Claudianos sobre uma mudança, com uma retomada das formas helenistas e uma grande ênfase na descrição verista do sujeito, mesmo quando ele é o imperador. A técnica também é expandida com um uso inovador de furadeiras, e os retratos femininos dessa fase são tipicamente adornados com complexos penteados. Com Trajano, contudo, o ciclo muda novamente e pende para a idealização, levada a um grau ainda maior com Adriano, cujas preferências helenistas eram marcadas. Os retratos de Marco Aurélio, além de reverterem para a caracterização realista, mostram um outro avanço no sentido da descrição psicológica e emocional, que nos retratos de Caracala atingem um alto grau de expressividade e exercem grande impacto na arte de todo o império. Mas dali em diante a influência oriental e um interesse por elementos geometrizantes levam o retrato a adquirir um aspecto progressivamente estilizado e abstrato. Com Constantino essa tendência chega a uma culminação, associada a um senso de monumentalidade que faz lembrar o classicismo da era de Augusto. O estilo desenvolvido sob seu reinado seria um precursor direto da arte bizantina e representa o fim da idade de ouro da escultura romana.[38][39]

Enquanto que os imperadores usavam os retratos primariamente para a reafirmação do poder e de seu programa político, na esfera privada eles serviam antes a um contexto fúnebre. Bustos acompanhados de inscrições elencando a parentela e patronos do morto decoravam altares, tumbas e urnas cinerárias. Essa tradição estava ligada a uma longa história de exibição de máscaras mortuárias de cera ou terracota de ancestrais ilustres nas procissões fúnebres da elite, realizadas para comemorar e atestar sua linhagem patrícia. Essas máscaras eram orgulhosamente mantidas no sacrário familiar, o lararium, junto com bustos em bronze, terracota ou mármore. Presume-se que o hábito da confecção das máscaras mortuárias, que copiam fielmente as feições do morto, seja uma das causas para o desenvolvimento do gosto pelo realismo na retratística romana.[40][41]

A intensa atividade política das famílias mais importantes vai, porém, levar usos privados para a esfera pública. Então, quando se erguiam monumentos celebratórios a alguma importante façanha militar ou a um ato político de repercussão, como a assinatura de um tratado, também se erguiam estátuas e bustos dos protagonistas, que eram acompanhadas de inscrições onde se declaravam os seus feitos excepcionais e a sua linhagem, num costume tipicamente romano que refletia a importância do contexto familiar na vida pública, já que se acreditava que uma boa história familiar era o melhor atestado da nobreza de um homem. No fim da era republicana a enorme rivalidade entre famílias ligadas ao poder deu margem a uma reiterada afirmação da linhagem como um fator essencial do sucesso, com todos os seus símbolos manifestos - as procissões, as inscrições, a galeria de retratos. É sintomático do relevante papel desempenhado pela estatuária na sociedade romana o fato de que quando um personagem caía em desgraça se empreendia a damnatio memoriae, ou seja, o apagamento de todas as inscrições contendo seu nome e realizações, e a destruição de seus retratos.[40]

No caso da estatuária se coloca um interessante problema para os pesquisadores modernos quando tais estátuas eram retratos do imperador em sua condição divinizada, especialmente nos períodos em que a descrição realista vigorou com maior força, pois se patenteia de imediato uma incongruência entre a forma de representação do corpo e da cabeça. Enquanto que a cabeça era mostrada muitas vezes com todos os sinais do envelhecimento, os corpos eram elaborados de acordo com os antigos cânones da estatuária grega clássica, idealizados e numa condição de eterna força e juventude. Essas obras estranhas, quando não jocosas, para os olhos modernos, acostumados a apreciar uma estátua como um todo homogêneo, se tornam compreensíveis quando se lembra das convenções que regiam a arte da retratística, e quando se sabe que a estatuária era para os romanos uma espécie de simulacro simbólico e não uma realidade.[42]

Assim, tem-se sugerido que de fato havia um acordo entre duas linguagens diversas, uma para a representação do corpo em termos simbólicos e outra para a representação descritiva da cabeça a fim de se poder identificar inequivocamente o sujeito, numa recusa da interpretação literal do conjunto. As mesmas convenções pareciam reger a estatuária privada quando se tratava de representar o genius do sujeito, e nesse caso pertenciam à esfera dos monumentos fúnebres. Com os mesmos propósitos se faziam muitas vezes a simples substituição da cabeça de alguma estátua célebre de um deus pela de um patrício romano ou do imperador, mas não parece ter havido qualquer dificuldade para os romanos na clara diferenciação entre estátuas de culto e estátuas simbólicas, entre uma estátua de um deus e uma estátua de fulano como um deus. E tampouco hesitavam em simplesmente remover a cabeça de uma estátua de quem quer que fosse e trocá-la pela de outro indivíduo, quando se empreendia alguma damnatio memoriae. Essa prática foi comentada com naturalidade na literatura da época, reafirmando a independência entre cabeça e corpo na imaginária romana.[43]

Nos outros tipos de estátuas, as decorativas e as de culto, a arte romana não acrescentou nada de essencialmente novo, e seus exemplares, embora muitos de qualidade superlativa, não mostram nada que já não tivesse sido exaustivamente experimentado antes pelos gregos clássicos e os helenistas, e cópias romanas de obras dessa produção seminal continuaram a ser produzidas até o século V. Entretanto, desde o século II, e com maior força depois de Constantino I, a crescente penetração da influência oriental vai determinar um progressivo afastamento, com alguns períodos de revivescência, do cânone grego, conduzindo à formação de um estilo sintético e abstratizante que seria a ponte para o estabelecimento da arte bizantina e da primeira Idade Média.[44]

[editar] Sarcófagos

O uso dos sarcófagos era comum entre os etruscos e gregos, mas em Roma se só foi adotado extensivamente a partir do século II, quando o costume da cremação dos mortos foi substituído pelo de sepultamento, e espalhou-se por todo o império. Sua produção se firmou em três centros principais - Roma, Ática e Ásia - e dividiu-se em alguns tipos distintos. Um deles, o mais comum, era uma caixa decorada com relevos figurativos, com tampa mais ou menos lisa; outro mostrava tampa também decorada, onde podiam figurar os retratos escultóricos dos falecidos em corpo inteiro, reclinados como se estivessem em um banquete, um modelo que derivou da arte etrusca. Ambos deram origem a exemplares decorados com relevos de extraordinário requinte e complexidade. Um terceiro tipo, circunscrito a Roma, tinha decoração abstrata ou floral e cabeças de animais, preferencialmente leões, nas extremidades. De qualquer forma havia muita variação e mistura entre esses modelos, e sua qualidade e riqueza decorativa dependia das posses da família.[45]

Sarcófago decorado com cena de batalha entre romanos e germânicos, c. 180–190. Museu Nacional Romano
Friso do Arco de Tito, mostrando o triunfo de Tito

O centro de produção asiático se distinguia por uma preferência por caixotões de dimensões avantajadas e formas arquiteturais, com colunatas no entorno, estatuetas intervalares e uma imitação de porta num dos lados, placas ornamentais e um teto prismático com acrotérios, simulando uma verdadeira residência ou templo, e podiam também contar com uma plataforma para elevação. Esse tipo, ao contrário dos outros, muitas vezes era decorado em todos os quatro lados e podia ser um monumento independente, instalado ao ar livre em alguma necrópole, enquanto que os demais apareciam usualmente em nichos nas tumbas, e sua decoração se resumia nas partes que ficavam visíveis. A prática romana de enterramento em sarcófagos foi continuada na era cristã, quando foi um dos principais meios para o desenvolvimento da iconografia religiosa.[46]

Coluna de Trajano

[editar] Relevos arquiteturais

Dentro da tradição dos altares monumentais, colunas comemorativas e dos arcos de triunfo, os relevos decorativos empregados nessas arquiteturas foram um campo fértil para o desenvolvimento de um estilo narrativo próprio dos romanos. Exemplos precursores classicistas, o Altar de Ahenobarbus e o Ara Pacis, já foram mencionados. Outro que merece nota é o friso da Basilica Aemilia (c. 54-34 a.C.) no Fórum Romano, num estilo helenizante vigoroso, movimentado, com drásticos escorços e complementado com cenas paisagísticas. Da Dinastia Júlio-Claudiana quase nada sobreviveu, mas uma relíquia que pode nos dar uma idéia do estilo desse período é um friso encontrado em Roma, mostrando uma procissão de magistrados e sacerdotes carregando estatuetas votivas, junto com assistentes, animais, músicos e outras figuras. Seu interesse reside num efeito de perspectiva aérea produzido pela inserção de figuras em segundo plano acima da linha do cortejo, um recurso que foi mais tarde amplamente empregado nas cenas históricas.[47]

A decoração do Arco de Tito (c. 81-82) tem sido considerada o ápice do estilo Flaviano. Dos painéis que o decoram o que mostra o triunfo de Tito tem excepcionais qualidades plásticas e demonstra uma grande habilidade técnica no uso do escorço para a representação da quadriga do imperador, onde o carro aparece vindo de frente para o espectador mas o artista consegue criar a impressão de que ele está fazendo uma curva à direita. O outro painel, ilustrando o saque de Jerusalém, emprega com a mesma felicidade esse recurso, num outro contexto, e ambos têm seu efeito ilusionístico realçado pelo sábio aproveitamento de luz e sombra. Mas na verdade é difícil falar de um "estilo Flaviano", pois em outros locais se encontram relevos mais estáticos, de índole bastante classicista e antipictorial.[3]

Do reinado de Trajano é célebre a Coluna de Trajano, que comemorou a campanha na Dácia entre 101 e 106. É uma enorme coluna revestida inteiramente de um friso contínuo que espirala para cima, sendo um exemplo perfeito do estilo narrativo dos relevos históricos romanos. Os episódios fundem-se uns aos outros sem qualquer interrupção salvo uma árvore ocasional. Trajano aparece várias vezes em situações diferentes. No total estão esculpidas quase 2.500 figuras, e o nível técnico é mantido em todo o conjunto. Um recurso inovador é o abandono da perspectiva e o uso de figuras desproporcionais em relação à sua paisagem de entorno, o que trai a influência orientalizante que penetrava por esta altura. Hoje vemos apenas as formas marmóreas, mas seu efeito quando completa deve ter sido deslumbrante, uma vez que de acordo com a prática do tempo todas as cenas eram sobrepintadas e adornadas com detalhes em metal. É possível que seu autor tenha sido Apolodoro de Damasco.[3]

Logo em seguida a tendência reverte para o classicismo. Exemplos importantes são o Arco de Trajano em Benevento, em excepcional estado de conservação - suas esculturas só foram completadas sob Adriano - e os onze painéis semelhantes em estilo, mas ainda mais bem conseguidos, representando o imperador Marco Aurélio em cenas variadas. Quatro deles hoje estão nos Museus Capitolinos, e os outros foram reaproveitados em tempos imperiais para a decoração do Arco de Constantino. A Coluna de Marco Aurélio é outro grande exemplo da prevalência classicista nesta fase; mesmo que haja uma multidão de figuras a se acotovelarem na espiral contínua do friso que envolve o monumento, se preserva um senso de ordem, elegância, ritmo e disciplina ausente na Coluna de Trajano.[3]

Esse interlúdio classicista, porém, teria um fim com Septímio Severo, cujo Arco remete novamente à arte oriental em seu sistema de proporções encurtado e sua frouxa organização das cenas. Do século III, praticamente nada sobreviveu, e o que temos de relíquias são pequenos frisos que mostram figuras atarracadas e toscas. O mesmo estilo continua ao longo do século IV, como se pode ver nos frisos superiores norte e sul do arco de Constantino, que fazem nítido contraste com os outros painéis, mais antigos, do tempo de Marco Aurélio. Os últimos exemplos significativos de escultura arquitetural romana estão na base do obelisco de Teodósio I no hipódromo de Constantinopla, e falam de uma arte mais próxima do universo bizantino que romano.[3]

[editar] Outros usos

Entre as aplicações menores da escultura estão as estatuetas de culto doméstico, as figurinhas e máscaras de teatro, os camafeus, os utilitários decorados, os amuletos e os brinquedos infantis. Menos celebrizados do que os grandes gêneros, não são menos importantes do que aqueles, e muitas vezes dão uma idéia mais exata, íntima e sincera da mentalidade romana, principalmente do povo, do que as imponentes representações oficiais.

[editar] Camafeus

Gemna Augustea, c. 9-12 d.C. Kunsthistorisches Museum
Boneca articulada, marfim, século II d.C. Museu Nacional Romano

Nesses gêneros menores, os camafeus são os mais luxuosos, restritos às classes superiores e usados geralmente como jóias. Talhados em pedras semipreciosas como a ágata, a calcedônia, o jaspe, a ametista e o ônix, são considerados esculturas miniaturizadas desde a apreciação que fez deles John Ruskin, quando até então eram considerados uma forma de gravura. Esta forma de esculpir foi introduzida em Roma pelos gregos helenistas, que foram os primeiros conquistar um alto grau de refinamento nesse gênero. Suas reduzidas dimensões não devem nos enganar quanto à perícia exigida para este tipo de obra, sendo necessária intensa concentração e enorme sensibilidade para trabalhar os veios da pedra e suas diferentes camadas para obter nuances sutis de cor e efeitos de luz e transparência. Sua datação é muito problemática, e muitas peças indicam terem sido retrabalhadas em diversos momentos diferentes. Os melhores exemplares se tornaram peças de colecionador ávidamente disputadas, e dentre eles podemos citar a fantástica Gemma Augustea, uma grande peça de ônix bicolor entalhada com duas cenas compostas de vários personagens.[48]

Durante o período imperial os camafeus gozaram de grande prestígio, o que inspirou os romanos a inventarem uma derivação em vidro, que oferecia a vantagem de possibilitar um maior controle sobre a cor e transparência mas era ainda mais difícil, demorada e custosa de trabalhar do que a pedra, apresentando consideráveis desafios técnicos, que até hoje não foram perfeitamente desvendados pelos vidreiros contemporâneos. Não obstante chegou-se a produzir vasos inteiros de camafeu de vidro com decoração esculpida, como os famosos Vaso Portland e o Vaso das Estações.[49]

[editar] Brinquedos

Os brinquedos são encontrados em todas as culturas, e os romanos não foram exceção. Referências literárias são abundantes desde o período helenista, e tudo indica que havia uma enorme variedade de objetos destinados à recreação infantil, desde as tradicionais bonecas a carrinhos com rodas móveis, figurinhas de guerreiros e animais, e até casas miniaturizadas feitas de metal, madeira ou terracota. Os brinquedos são um terreno fértil para o estudo das condições econômicas e sociais da época.[50]

Estatueta de culto doméstico da deusa Fortuna, século I d.C. Discovery Place Science Museum

[editar] Estatuetas de culto privado

Na esfera religiosa se destacam as estatuetas de culto privado das inúmeras divindades do panteão romano e das deidades familiares e regionais. O hábito de antropomorfização dos deuses foi herdado dos etruscos e gregos, e logo praticamente todas as forças naturais e potências abstratas assumiram para os romanos um aspecto humano e receberam culto, embora sua religião não fosse rigidamente organizada e o culto privado tivesse um papel importante. Os museus estão repletos de estatuetas de culto doméstico, o que prova sua ampla distribuição em todo o império. Sua qualidade artística é deveras variável, e é de esperar que as consumidas pela população comum sejam toscas e pouco atraentes, mas existem exemplares de grande refinamento. Lembremos que nesse campo não era a estética o que valia e sim sua eficácia para os romanos como pontes de comunicação entre os mortais e o sobrenatural.[51]

De função semelhante são as estatuetas-amuleto. Na complexa e polimorfa religião romana a magia tinha um papel não insignificante, e nela os amuletos encontravam seu lugar. Os gregos e etruscos os usavam, e diversos autores clássicos falam em seu favor, como Plínio e Galeno. Os romanos também fizeram disso um costume generalizado, especialmente na época tardo-imperial. Embora os amuletos geralmente fossem objetos pequenos e portáteis, não necessariamente figuras, sobrevive uma quantidade de estatuetas que desempenham as mesmas funções, retratando espíritos protetores das residências associados aos antepassados, os Lares, profundamente venerados em santuários domésticos, ou Príapo, o deus fálico, cuja imagem era considerada um poderoso remédio contra o mau-olhado, a esterilidade e a impotência, e que era colocado do lado externo da entrada das casas.[52]

[editar] Utilitários decorados

Resta fazer uma breve menção aos vasos, os serviços de mesa, as lâmpadas, maçanetas de porta e inúmeros outros tipos de objetos utilitários com decoração que se aproxima da escultura propriamente dita, uma variadíssima categoria de peças que atesta a larga aplicação da escultura na antiga Roma. As lâmpadas e braseiros podiam ser decorados com imagens em relevo mostrando cenas religiosas, eróticas ou mitológicas, conforme o local para onde se destinavam, e podiam possuir um ou mais pés bastante ornamentados. Pratos, vasos, taças e travessas também podiam apresentar relevos, ou alças e pescoços de formas extravagantes. Nas cerâmicas se destaca o tipo terra sigillata, uma espécie de vaso decorado com incisões e relevos, que teve larga difusão, e os ante-fixae, peças decorativas instaladas nas beiras dos telhados, que podiam ser em formas abstratas ou figurativas.[53]

[editar] A escultura tardo-imperial

Como se aludiu antes, os últimos séculos do império (século III a século V) viram o nascimento de um contexto cultural inteiramente novo. Algumas vezes essa fase de transformação tem sido encarada como uma decadência artística, mas é preciso lembrar que o cânone grego foi o resultado de uma época e um contexto bem determinados, e embora ele tenha moldado as origens artísticas de Roma e boa parte de sua trajetória, os tempos e o território haviam mudado, e o classicismo já começava a se tornar uma lembrança do passado e uma referência simbólica ou historicista, antes do que uma realidade viva. Agora Roma já tinha uma história própria, e entrava em num período de intenso intercâmbio com culturas de enorme antiguidade do Oriente Próximo, cujo corpo de idéias, cultos, arte e aspirações se tornavam parte integrante da cultura romana. Da mesma forma, as inúmeras províncias imperiais, que se estendiam da Hispânia, Britânia e Gália à Pérsia, Arábia, Cáucaso e ao norte da África, desenvolviam estilos sincréticos com suas próprias tradições locais, criando obras que eram aceitáveis tanto para a visão metropolitana como pela provincial, embora interpretados de modos diferentes por cada um dos lados.[44]

O Bom Pastor, paleocristão, século IV. Museu Pio-Cristão

Numa era de fermentação cultural e grande diversidade de princípios estéticos, a permanência de elementos classicistas em todas as partes, modificados, é certo, em graus variáveis, possibilitava mesmo assim a manutenção de canais de comunicação abertos e agia como uma espécie de língua-franca artística. O sincretismo foi sempre uma das características da arte romana, mas no período tardo-imperial assumiu um papel de crucial importância. Depois da cristianização do império, os padrões da arte pagã foram adotados pelos imperadores cristãos sem qualquer hesitação, embora adaptados para temas novos. Quando Constantinopla se tornou a nova capital, foi repleta de alusões arquiteturais e artísticas à "Antiga Roma", num desejo declarado de manter a continuidade das antigas tradições mesmo que elas devessem ser manejadas para atender às necessidades de um contexto novo. Na verdade uma permanência literal do classicismo seria impossível, e o que aconteceu foi uma "continuidade seletiva". Esse processo foi consciente e voluntário, como a literatura do período o confirma. Alguns protótipos formais foram mantidos, enquanto que um grande repertório de outros modelos foi simplesmente votado ao esquecimento. O mascaramento das rápidas mudanças sociais e políticas que aconteciam sob formas eleitas retiradas da herança clássica forneceu uma coesão cultural importante numa fase em que os elementos constituintes do império tendiam para a diversidade, e quando a fragmentação do Estado já se tornava uma ameaça real.[54]

Camafeu mostrando Constantino sendo coroado por Constantinopla, século IV. Museu Hermitage

A elite continuava a receber uma educação clássica e se mantinha conservadora. Liam autores consagrados, e com eles se familiarizavam com a tradição ancestral, desenvolvendo apreço por ela. A cidades, as villas aristocráticas, os teatros, ainda eram decorados com imagens pagãs. A conversão de Constantino ao Cristianismo em 312 determinou uma ruptura com essa tradição, embora não imediatamente e nem de forma completa. Segundo Rachel Kousser,

"A aristocracia do século IV teve assim de negociar um lugar para si nesse mundo contraditório, sem fazer disso um conflito aberto. Os monumentos que encomendavam preservam os traços dessa negociação; tradicionais na forma, oblíquos no conteúdo, eles documentam o estabelecimento de um novo consenso. As obras de arte mais bem sucedidas que resultaram eram providencialmente inespecíficas; seu objetivo não era proclamar uma identidade definida e única dos seus patronos, mas antes sugerir uma pletora de valores comuns, permanecendo abertas para uma variedade de interpretações. Em consequência, em vez de enfatizarem as ligações dessas obras a ideologias religiosas particulares, filiações políticas, e assim por diante - que evidenciaria, em suma, um caráter separatista - (…) são ressonantes e unificadoras. Para os aristocratas do século IV, essas imagens baseadas em tipos clássicos de estatuária foram veículos úteis para uma auto-representação equilibrada e eficiente; elas falavam de um passado compartilhado por todos e de um presente dividido. Assim fazendo, contribuíram para assegurar a sobrevivência das formas clássicas na arte medieval. (…) As obras de arte que resultaram tinham um aspecto familiar, mesmo para seu primeiro público. Embora elas pareçam hoje monotonamente convencionais para muitos estudiosos modernos, tiveram um valor na Antiguidade tardia. Elas identificaram a nova ordem cristã com a tradição venerável, uma tradição que considerava a representação naturalista da forma humana como a mais alta conquista da arte escultórica. Nesse sentido, os monumentos classicistas da Antiguidade tardia ajudaram a perpetuar um sistema artístico e um corpo de valores que se havia originado na Grécia clássica, se disseminado para a Roma imperial, e que se provaria uma profunda influência para o Renascimento e também para períodos posteriores".[6]

O prestígio da estatuária pagã continuou elevado até o século VI d.C.; nem mesmo a ascensão do Cristianismo e o banimento do culto antigo por Teodósio I em 391 provocaram uma imediata destruição de imagens de culto e decorativas. Prudêncio, no fim do século IV d.C., ainda recomendava que se preservassem as estátuas dos ídolos pagãos como "exemplos da habilidade de grandes artistas, e como adorno esplêndido de nossas cidades", e Cassiodoro relata como ainda eram feitos esforços no século VI d.C. de se conservar esculturas antigas como testemunho da grandeza imperial para a posteridade. Contudo, logo em seguida a política do papado e do império mudou, e os monumentos da antiguidade começaram a ser saqueados para retirada de material para uso em outras obras, estimulando uma assombrosa onda iconoclasta em todo o império que decretou o desaparecimento da vasta maioria do fabuloso acervo de obras de arte acumulado ao longo de séculos.[55]

[editar] O uso da cor como recurso mimético e expressivo

Complementando o trabalho de cavar a pedra ou moldar o bronze, o efeito final da peça de escultura era modificado com o acréscimo de policromia de superfície, uma prática herdada dos gregos e absolutamente corriqueira, conforme atestam os relatos históricos, e que emprestava às esculturas um aspecto totalmente diverso de como as vemos hoje nos museus, em pedra e bronze apenas. Esse dado histórico, embora conhecido pelo menos há dois séculos, ainda hoje causa estranhamento, e de fato deu origem a uma idéia errônea até mesmo entre arqueólogos e conservadores de museus de que as obras originais eram realizadas deixando-se os materiais aparentes, equívoco que se perpetuou até bem pouco tempo. Este uso decorativo de pigmento era na verdade um dado fundamental na arte antiga, e não havia estátua ou frisos e relevos que não recebessem pelo menos detalhes em cor, quando não eram todos pintados.

Reconstrução moderna da policromia original em uma réplica de um retrato de Calígula. Exposição Bunte Gütter

Além da tinta se usavam inserir peças de outros materiais coloridos como prata e ouro, esmaltes ou madrepérola e vidro, para salientar certos traços ou partes anatômicas, e certos tipos de mármore colorido e pedras nobres como o ônix, o alabastro e a sardônica, ricos em veios multicores e transparências, podiam ser usados nas partes de vestuário das estátuas para criar efeitos mais luxuosos. Pesquisas recentes publicadas junto com exposições temáticas, com réplicas de obras importantes com reconstituição das suas cores originais, oferecem uma visão completamente nova da arte clássica, à qual o grande público ainda não está familiarizado.[56][57]

[editar] Legado

Os romanos foram o primeiro povo a se orgulhar de florescer à sombra de uma cultura estrangeira. Virgílio, em sua Eneida, fazia o espectro de Anquises declarar à Roma ainda não nascida que ela seria nas artes e ciências sempre inferior aos gregos, embora devesse os superar na guerra e na administração pública. Em outra parte o poeta se gabava porque sua musa fora a primeira a cantar em versos à maneira de Teócrito, e casos semelhantes se multiplicam na literatura da época. Como foi demonstrado, toda a produção romana de escultura foi imensamente devedora do exemplo grego, e o mesmo se deu com as demais artes, como a poesia, a música e a arquitetura. Este é um fato, mas ele tem sido interpretado por autores influentes como Arnold Toynbee e Roger Fry em demérito dos romanos, olhando-os como um povo essencialmente imitativo, uma sub-espécie de helenistas, e cujo único valor artístico teria sido o de transmitir para a posteridade a herança grega. Essa opinião refletia a posição da crítica no fim do séulo XIX, que em suma culpava os romanos por não serem gregos, mas ironicamente ela deriva dos próprios romanos, que mantinham em relação ao seu papel de epígonos uma atitude ao mesmo tempo orgulhosa e modesta. Mas como vimos isso não impediu que seus escultores desenvolvessem alguns traços de evidente originalidade, largamente reconhecidos por outros críticos, tornando aquela acusação, se bem que baseada em ampla evidência, não de todo justa.[58][59]

Além disso, julgar uma cultura antiga a partir de um ponto de vista moderno é sempre manobra temerária. Os romanos se caracterizaram por possuírem genericamente um elevado espírito público e uma forte aversão a individualismos e excentricidades, o que sempre causou espanto para os gregos, e as tradições ancestrais, públicas e familiares, sempre foram objeto de veneração extremada. Virgílio conta na Eneida a história de Enéias carregando seu pai nos ombros na fuga de Troia, o que se tornou um modelo da pietas romana, o dever honroso para com os pais, e mesmo em épocas conturbadas por disputas políticas e elites imorais e decadentes, e mesmo que fossem comuns entre toda a sociedade comportamentos que hoje vemos como cruéis e bizarros, entre as qualidades mais prezadas num romano, estavam a parsimonia, a severitas, a frugalitas e a simplicitas - economia, austeridade e dignidade, frugalidade, e simplicidade - repetidamente louvadas na literatura coeva. Tendo esses fatores em conta, sua aparente falta de originalidade se torna relativa e um traço cultural identitário. Seja como for, a escultura nos dá muito material para podermos estudar todo o legado romano e compreender sua atitude peculiar no terreno cultural.[60]

Estátua eqüestre de Marco Aurélio, c. 176 d.C. Museus Capitolinos

Caindo em obscuridade na Idade Média, tanto pela destruição anterior da maior parte dos exemplos, como pela mudança na concepção de arte e nos valores culturais, a escultura romana teria no Renascimento uma oportunidade de fazer nova aparição na cena artística. E mais que uma aparição, de fato foi um elemento central para a elaboração da nova estética dessa época. Rafael, ciente da extensão da perda de obras antigas em tempos anteriores, deplorou o hábito do reaproveitamento dos mármores e bronzes para criação de outros artefatos, e a descoberta de vários espécimens de alta qualidade da escultura romana nesse período causou sensação na sociedade renascentista, estimulando cópias e reinterpretações, a busca ávida por outras relíquias em inúmeras escavações arqueológicas, e o aparecimento de uma enxurrada de reproduções em gravuras. Sua influência na escultura do período dificilmente pode ser superestimada.[61]

Durante o Barroco o interesse pela estatuária antiga não declinou. Mestres como Bernini era notórios amantes da arte greco-romana, e sua própria produção deve muito a exemplos antigos e aborda temas clássicos. E tampouco declinou durante os períodos seguintes. No século XVIII, formando-se entre as elites o costume do Grand Tour europeu, Roma era visita obrigatória, e o desejo pelo conhecimento e pela aquisição de arte da Antiguidade clássica se tornou uma mania, determinando o surgimento do Neoclassicismo. Entre os séculos XVIII e XIX se formaram diversas coleções privadas importantes em vários países, e que na Inglaterra em particular serviram também para assegurar a boa reputação social dos proprietários e facilitar seu acesso a cargos públicos. Apesar dos artistas neoclássicos admirarem altamente a produção grega, seu estilo de releitura do classicismo antigo na verdade se baseou antes em príncípios romanos, pelo simples fato de que as obras conhecidas àquela época eram quase todas romanas, e não gregas. Em meados do século XIX, com a reabertura da Grécia para o ocidente depois de longo domínio turco, com a realização de várias pesquisas arqueológicas que trouxeram à luz uma grande quantidade de obras originais gregas, e sob a influência da corrente romântica, o gosto do público tendeu em direção ao Helenismo, mas nem aqui a arte romana caiu em desfavor, pois um novo ímpeto colecionista de novos-ricos norteamericanos manteve essa tradição em alta. No século XX, porém, a revolução modernista levou a um decréscimo acentuado na capacidade da arte romana de inspirar as novas gerações de artistas, embora as coleções de escultura da antiga Roma continuem até nos dias de hoje a atrair multidões em todos os museus onde são expostas e sejam parte importantíssima da herança de uma civilização cuja memória permanece surpreendentemente viva e da qual a nossa própria cultura nasceu.[62][63]

[editar] Ver também

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[editar] Referências

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  2. TOYNBEE, Jocelyn M.C. Western Sculpture: Roman and Early Christian. In Encyclopaedia Britannica on line [1]
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  11. História de Roma. Wikipédia, a enciclopédia livre. 1 Jul 2008
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  20. O enorme Altar de Pérgamo, o Gálata suicida, e o intensamente dramático grupo de Laocoonte, três das mais impressionantes criações helenísticas, são desta escola
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  63. STRONG, Eugénie. pp. 3-4

[editar] Ligações externas

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