| Concha-rainha |
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Eustrombus gigas in situ
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Não avaliada ([1])
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| Classificação científica |
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| Eustrombus gigas (Linnaeus, 1758) |
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Distribuição de Eustrombus gigas[2]
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| Sinónimos |
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Eustrombus gigas, popularmente conhecida como concha-rainha, é uma espécie muito grande de caramujo marinho comestível, um molusco gastrópode pertencente à famíla Strombidae. Trata-se de um dos maiores gastrópodes da porção oeste da zona do Atlântico Tropical, cuja distribuição se estende de Bermudas ao Brasil. Nos diversos países onde ocorre, é também conhecido por outros nomes populares, como caracol rosado, cobo, botuto, guarura, e lambi.[4][5][6]
Este grande gastrópode herbívoro vive em fundo bentônico, em meio a leitos de ervas marinhas, embora seu habitat exato possa variar com os diferentes estágios de seu desenvolvimento. O animal adulto possui uma concha grande e pesada, com uma característica abertura de coloração rosada e um lábio externo bastante expandido, ausente em espécimes juvenis. Sua anatomia externa assemelha-se à de outros caramujos da mesma família; apresenta um focinho longo, dois pedúnculos oculares dotados de tentáculos sensoriais menores, um pé forte e um opérculo córneo em formato de foice.
E. gigas possui alguns comensais, incluindo outros gastrópodes, caranguejos e peixes, e entre os seus parasitas encontram-se os coccídeos. Os predadores da concha-rainha são outros moluscos, estrelas-do-mar, crustáceos e vertebrados (peixes, tartarugas marinhas e humanos). Sua carne é consumida por humanos e empregada em uma miríade de receitas. A concha, por sua vez, é comercializada como souvenir ou como objeto decorativo. Foi também utilizada por nativos americanos e por antigos povos caribenhos para a fabricação de utensílios.
A concha-rainha está protegida pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES).[7] Tal espécie ainda não está verdadeiramente ameaçada em todo o Mar do Caribe, mas corre perigo em muitas outras áreas. A ameaça deve-se, em grande parte, à coleta exacerbada deste animal, pois sua carne é uma fonte de alimento importante para os humanos. Os regulamentos da CITES estão voltados para a interrupção da exportação de carne de E. gigas nos países caribenhos onde é encontrado, bem como a exploração comercial de sua concha como objeto de decoração. Ambos tipos de comércio eram tão intensos no passado que representavam uma ameaça muito séria à sobrevivência da espécie.
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O nome científico da espécie tem origem na língua grega γίγας (transliterado: gigas), que significa "gigante", em provável alusão ao tamanho corpóreo excepcionalmente grande do animal. Esta espécie foi primeiramente descrita por Linnaeus em 1758 como Strombus gigas, porém os Strombidae foram submetidos a uma ampla revisão taxonômica recentemente[8], e alguns subgêneros, incluindo Eustrombus, foram elevados ao nível de gênero por alguns autores. Petuch (2004)[9] e Petuch e Roberts (2007)[10] recombinaram esta espécie como Eustrombus gigas e Landau et al. (2008) a recombinaram como Lobatus gigas.[11][12]
Tendo em vista a ausência do material utilizado por Linnaeus em sua descrição original, o neótipo desta espécie foi designado por Clench e Abbott em 1941. Não se tratava de um espécime real, mas sim uma figura do livro Recreatio mentis, et occuli escrito pelo estudioso italiano Filippo Buonanni e publicado em 1684. Entretanto, em 1953, o malacólogo Nils Hjamar Odhner vasculhou a coleção Lineana da Universidade de Uppsala, na Suécia, e descobriu a concha original que Linnaeus utilizou em sua descrição, o que invalidou o neótipo designado por Clench e Abbott. Atualmente, o tipo encontra-se depositado na coleção desta instituição.[13] Linnaeus nunca definiu qualquer localidade-tipo específica em sua descrição original, citando apenas "America" como uma referência.[14][15]
Muitos detalhes da anatomia de E. gigas não eram bem conhecidos até 1965, quando o zoólogo americano Colin Little publicou um estudo geral sobre o assunto.[16] Detalhes anatômicos foram recentemente descritos por Simone (2005).[17] Eustrombus gigas possui um focinho longo e bastante extensível, que contém uma rádula do tipo tenioglossa em seu interior.[16] Dois pedúnculos oculares (também denominados omatóforos[14][17]) projetam-se de sua base, e cada um deles contém um olho grande e bem desenvolvido com íris amarelada e pupila negra, e também um tentáculo sensorial menor que se origina próximo de sua extremidade anterior.[14][18] Os olhos de E. gigas têm a capacidade de regenerar-se completamente caso a extremidade do pedúnculo seja amputada.[19] Tanto o focinho quanto os pedúnculos oculares apresentam manchas de coloração escura nas áreas comumente expostas. O manto apresenta coloração mais escura na parte anterior, tornado-se mais clara posteriormente. Sua margem frequentemente possui coloração alaranjada, bem como o sifão, que também pode ter uma tonalidade amarelada. Várias estruturas são facilmente distinguíveis externamente quando o animal é removido da concha, como o rim, a glândula nefridial, o pericárdio, as glândulas genitais, o estômago, o saco do estilete e a glândula digestiva.[16]
Eustrombus gigas tem um pé grande e forte, de coloração escura na base, tornando-se mais esbranquiçada em direção à massa visceral. A base da extremidade anterior do pé apresenta um sulco distinto, que contém a abertura da glândula pediosa. Afixado à extremidade posterior do pé, por cerca de um terço de seu comprimento, está o opérculo córneo com formato de foice ou garra, de coloração marrom escura, e que possui uma costela central conferindo-lhe um reforço estrutural. A base dos dois terços posteriores do pé do animal é arredondada, e apenas o primeiro terço é aplicado ao substrato durante a locomoção. O músculo columelar tem coloração esbranquiçada[16], e permanece aderido à columela (o pilar central da concha univalve, ao redor do qual as espiras são constituídas[20]). A contração vigorosa desse músculo permite ao animal retrair-se para o interior da concha, em resposta a estímulos indesejados.[16]
A concha adulta de E. gigas tem de 15–31 cm de comprimento[18], sendo o tamanho máximo já reportado de 352 mm.[21] É bastante sólida e pesada, apresentando de nove a dez voltas e um lábio externo bastante desenvolvido e estendido.[14] Uma fenda em forma de "U", presente no lábio externo à direita do canal sifonal da concha de um espécime dextrógiro adulto (denominado "stromboid notch" em inglês, ou "fenda dos Strombus" em português)[22], é característica da família Strombidae e facilmente distinguível nesta espécie. No animal vivo, um dos pedúnculos oculares se protrai através dessa fenda.[21][23][24]
A espira (porção mais posterior da concha em espiral que compreende todas as voltas, com exceção da última, que é conhecida como volta do corpo[20]) da concha é usualmente mais alta, isto é, alongada do que a de outras espécies da família Strombidae. As extremidades da abertura da concha adulta são coloridas em tons de cor-de-rosa mais ou menos suave, a depender do indivíduo, podendo apresentar também uma coloração mais avermelhada, ou ainda uma tonalidade creme ou amarelada. O perióstraco (camada mais externa da concha, similar a uma película de espessura variável, composta unicamente de material orgânico[20]) é bastante fino, com cor bronze suave.[21][23]
Diferentemente do que ocorre com os animais adultos, as conchas de indivíduos juvenis têm uma coloração malhada de marrom e branco, e não possuem o lábio externo estendido ou espessado. Na Flórida, os juvenis são conhecidos como rollers ("roladores", em inglês), pois a ação das ondas facilmente os deslocam, fazendo rolar suas conchas. Todavia, é muito difícil que o mesmo se aplique a indivíduos adultos, que são muito maiores, mais pesados e estáveis. O lábio externo da concha tende a se estender e espessar com a idade do animal.[25][26][27]
As condições ambientais, como localização geográfica, disponibilidade de alimento e temperatura, e outros fatores externos, como ação de predadores, podem influenciar de maneira considerável a morfologia da concha de E. gigas.[28][29] Os indivíduos juvenis da espécie desenvolvem conchas mais espessas quando expostos à ação de predadores, se comparados a indivíduos não-expostos. Também desenvolvem conchas mais largas e grossas, com espira adornada por espinhos menos protuberantes, conforme aumenta a profundidade em que vivem.[29]
Desenhos da obra Index Testarum Conchyliorum, publicada em 1742 pelo médico e malacólogo italiano Niccolò Gualtieri, e do Manual of Conchology, publicado em 1885 pelo malacólogo americano George Washington Tryon, ilustram a morfologia de conchas em estado adulto e juvenil de E. gigas, sob diferentes perspectivas.[27] As ilustrações não-coloridas mostram a vista apical (note a espira alongada, no centro do desenho), ventral (note a fenda dos Strombus próxima ao canal sifonal, no topo do desenho) e dorsal de uma concha completamente desenvolvida. Nessas ilustrações, o lábio externo expandido e espessado com formato alado é marcante. O desenho colorido representa uma concha em estágio juvenil, com seu padrão típico de coloração (note a ausência da expansão do lábio externo na última volta da concha, conferindo um contorno muito mais cônico ao espécime representado):
A concha-rainha utiliza um método bastante peculiar para locomover-se. Esta série de manobras intrincada e curiosa foi originalmente descrita pelo zoólogo americano George Howard Parker em 1922.[30] Primeiramente, o animal fixa a extremidade posterior do pé ao substrato, fincando nele o opérculo pontiagudo. Então, estende o pé anteriormente, levantando e projetando a concha adiante no chamado "movimento de salto", muito similar a um saltador com vara.[31] O movimento de salto torna E. gigas um bom escalador de superfícies verticais de substrato resistente,[32] e pode auxiliar o animal a inibir seus predadores, impedindo que os traços químicos por ele deixados no substrato sejam rastreados.[33]
Eustrombus gigas é nativo da América do Norte e Central.[21] Vive na zona tropical caribenha, que inclui: México, sul da Flórida, as Bahamas e Bermuda, ao norte, em profundidades variando de 0,3 m a 18 m.[21] Localidades onde a concha-rainha pode ser encontrada incluem[3][34][35][36]:
Aruba, nas Ilhas ABC; Barbados; Bimini, Ilha Cat, Eleuthera, Inagua e San Salvador em Bahamas; Belize; Bermuda; Brasil (contestado por alguns autores[14]); Costa Rica, República Dominicana e Panamá; Ilhas Swan em Honduras; Jamaica; Martinica; Alacrán, Campeche, Cayos Arcas e Quintana Roo, no México; Porto Rico; São Bartolomeu; Mustique e Granada, nas Granadinas; Pinar del Río, Havana, Matanzas, Villa Clara, Cienfuegos, Holguín, Santiago de Cuba e Guantanamo, nas Ilhas Turks e Caicos e Cuba; Carolina do Sul, Florida e Flower Garden Banks, Texas, nos Estados Unidos; Carabobo, Falcon, Golfo da Venezuela, Arquipélago de Los Roques, Los Testigos e Sucre, na Venezuela, e St. Croix, nas Ilhas Virgens.
Este grande caramujo vive em prados de ervas marinhas e substrato areno-lodoso,[37] comumente associado a espécies dos gêneros Cymodocea[38], Thalassia[25] e Syringodium.[28] Indivíduos juvenis são avistados em prados de algas em águas rasas, bastante diferentes daqueles em que normalmente se localizam os adultos.[21][39] Os habitats utilizados como berçários pelos indivíduos juvenis são definidos por uma série de fatores combinados, características intrínsecas do ambiente e processos ecológicos, que, juntos, proporcionam altas taxas de recrutamento e sobrevivência.[40] Eustrombus gigas é frequentemente encontrado em agregados distintos que podem conter vários milhares de indivíduos cada.[29]
Eustrombus gigas é dióico e a fertilização ocorre internamente.[29] As fêmeas são normalmente maiores que os machos em populações naturais, e ambos os sexos estão presentes em proporção similar.[37] Após a fertilização, as fêmeas depositam os ovos em cordões gelatinosos que podem alcançar um comprimento aproximado de até 23 m,[21] sobre a areia ou algas.[29] O cordão pode enrolar-se sobre si aglutinando-se, constituindo uma massa de ovos compacta. Cada massa de ovos pode ter sido fertilizada por múltiplos machos, e o número de ovos por massa pode variar bastante, dependendo das condições ambientais, como disponibilidade de alimento ou variações de temperatura.[29] Usualmente, as fêmeas produzem em torno de oito a nove massas de ovos por temporada[29][41] e cada uma delas pode conter de 180 000 a 460 000 ovos,[21] embora a cifra de até 750 000 ovos possa ser alcançada sob certas condições.[29] As fêmeas de Eustrombus gigas podem procriar várias vezes por temporada reprodutiva[21], que dura de março a outubro, com picos de atividade entre julho e setembro.[24] Após a eclosão, as larvas véliger (uma forma larval comum a vários gastrópodes e bivalves marinhos[31]) bilobuladas emergem para passar vários dias desenvolvendo-se em meio ao plancton, alimentando-se primariamente de fitoplâncton. A metamorfose ocorre em cerca de dezesseis a quarenta dias a partir da eclosão[29], quando a protoconcha (a concha embrionária) está a alcançar uma altura de 1,2 mm.[37] Após a metamorfose, os indivíduos de Eustrombus gigas passam o restante de suas vidas na zona bentônica, sobre a superfície do sedimento, normalmente permanecendo enterrados durante o primeiro ano de vida.[42]
Eustrombus gigas atinge a maturidade sexual na idade aproximada de três a quatro anos, com um comprimento de concha de aproximados 180 mm e pesando até 2,27 kg.[21][24] Corriqueiramente, cada indivíduo pode viver por até sete anos. Em águas profundas, podem viver até vinte ou trinta anos.[21][29][37] Estimativas de longevidade, em alguns casos, alcançam quarenta anos.[43] Acredita-se que a taxa de mortalidade tende a ser menor em indivíduos mais velhos, graças a sua concha mais espessa. Estimativas demonstram que a taxa de mortalidade de E. gigas diminui em proporção inversa ao tamanho do animal, mas pode variar também com o habitat, e outros fatores.[42]
A concha-rainha é um animal herbívoro como os demais Strombidae[44], alimentando-se de ervas marinhas, macroalgas (incluindo a espécie Sphaerococcus confervoides[27]), e ocasionalmente detritos.[45] A macroalga verde Batophora oerstedii é notavelmente um de seus alimentos prediletos.[21]
Diversas espécies de animais são comensais de E. gigas, o que significa que ambos os organismos mantêm uma relação onde um indivíduo se beneficia (o comensal) e o outro não obtém qualquer vantagem (neste caso, a concha-rainha). Entre os moluscos, são principalmente as espécies do gênero Crepidula.[28] O crustáceo decápode Porcellana sayana é também um de seus comensais[28], e um pequeno peixe cardinal, conhecido como peixe-caramujo (Astrapogon stellatus[28]), por vezes aloja-se no manto de E. gigas para proteger-se, não trazendo-lhe qualquer benefício aparente.[21] Esta espécie de caramujo é frequentemente parasitada por coccídeos pertencentes ao filo Apicomplexa.[46][47] Estes microorganismos unicelulares alojam-se inicialmente em células vacuoladas das glândulas digestivas do hospedeiro, onde se reproduzem livremente.[46][47] A infestação pode então proceder para as células secretoras do mesmo órgão, e o ciclo de vida completo do parasita provavelmente ocorrerá no mesmo hospedeiro e tecido.[47]
Eustrombus gigas é presa de diversas espécies de moluscos gastrópodes carnívoros,[48] como o múrice-pomo (Murex pomum), o caramujo Turbinella angulata, os caramujos-lua Natica spp. e Polinices spp., o múrice Murex margaritensis, o trompete-de-tritão (Charonia variegata), e o caramujo-tulipa (Fasciolaria tulipa). Vários crustáceos são predadores conhecidos da concha-rainha,[48] como o siri-azul (Callinectes sapidus), o caranguejo Calappa gallus, o ermitão Petrochirus diogenes, a lagosta Panulirus argus, e muitas outras espécies. Eustrombus gigas é também presa de equinodermos, como a estrela-do-mar Oreaster reticulatus, e de vários vertebrados, incluindo peixes como o Trachinotus falcatus[49] e o baiacú Diodon hystrix, as tartarugas marinhas Caretta caretta e os humanos.[18][48]
A carne deste caramujo é tradicionalmente uma parte importante da dieta em muitas ilhas das Antilhas. É consumida crua, marinada, picada ou fatiada em uma ampla variedade de receitas, como saladas, ensopados, frituras e patês, além de outras receitas locais.[18][38][50] Nas regiões de língua espanhola, como na República Dominicana, por exemplo, a carne de E. gigas é conhecida como lambí. A coleta não-sustentável de caramujos é uma ameaça e tem gerado uma preocupação crescente com a diminuição de suas populações. A carne da concha-rainha é usada principalmente para consumo humano, mas também pode ser utilizada como isca para pesca.[43]
O Eustrombus gigas está entre os recursos pesqueiros mais importantes do Mar do Caribe, alcançando um valor comercializado de trinta milhões de dólares americanos em 1992,[29] e o dobro, sessenta milhões de dólares, em 2003.[51]
O peso total da carne de Eustrombus gigas comercializada entre 1993 e 1998 alcançou 6 519 711 kg a 7 369 314 kg. Posteriormente, sua produção declinou para 3 131 599 kg em 2001.[51] Dados sobre a importação de carne da concha-rainha pelos Estados Unidos mostram um número máximo de 1 832 000 kg, quase nove milhões de dólares americanos, importados no ano de 1998 para 387 000 kg, e cerca de três milhões e meio de dólares americanos, em 2009.[52]
A concha de Eustrombus gigas é popular como objeto de alto valor estético, dado seu tamanho e sua beleza, mas sua exportação é agora controlada e restringida pela CITES.[18] Na contemporaneidade, conchas de E. gigas são aproveitadas principalmente em artesanato. Os espécimes são utilizados para produção de camafeus, pulseiras e lamparinas[38], entre outras coisas. Muito raramente (uma em cada 10 000 conchas-rainha[18]), uma pérola de caramujo de coloração rosada[26] é encontrada dentro do manto do animal.[18] Estas pérolas são consideradas um atrativo para turistas[38], e as mais belas possuem valor como gemas preciosas e são utilizadas para a confecção de brincos e colares. Uma pérola de caramujo é uma concreção calcária não-nacarada, distinta de uma pérola de ostra.[53]
Os indígenas do sul da Flórida, como os Tequesta, e indígenas caribenhos fabricavam ferramentas como facas, lâminas de machado, cinzéis, além de jóias e utensílios de cozinha a partir das conchas de E. gigas, também utilizando-as como chifres-de-sopro.[18][54]
Apenas as conchas-rainha sexualmente maduras são capazes de reproduzir-se, mas há quase a mesma quantia de carne em um indivíduo juvenil grande, quando comparado a um adulto.[50] Em locais onde os adultos se tornaram raros, animais juvenis e subadultos são frequentemente coletados por pescadores antes de terem tido a chance de reproduzir-se.[50][55] Em várias ilhas caribenhas, as conchas-rainha subadultas constituem a maior parte do pescado.[56] A abundância da concha-rainha tem declinado com o passar dos anos, como resultado de pescaria exacerbada e caça.[43] As populações da espécie em Honduras, no Haiti e na República Dominicana em particular, estão sendo exploradas em quantidades que podem ser não-sustentáveis,[43] e o comércio em vários países do Mar do Caribe é tido como provavelmente ou certamente não-sustentável.[43] A pesca ilegal de Eustrombus gigas, sobretudo em águas estrangeiras e subsequente comércio ilegal internacional, é um problema amplo e comum na região.[43] A International Queen Conch Initiative (Iniciativa Internacional da concha-rainha, em inglês) é uma tentativa de organizar a pescaria desta espécie, e tem um sítio eletrônico próprio.[36]
Eustrombus gigas é mencionado na CITES desde 1985[29] e está no seu Apêndice II[7] desde 1992, por conta do contínuo declínio de suas populações[29] e, portanto, sua comercialização é estritamente regulamentada.[57]
Nos Estados Unidos, toda a pesca de conchas-rainha é proibida na Flórida e águas federais adjacentes.[43] Não existe qualquer organização internacional de manejo da pesca dessa espécie no Mar do Caribe.[43] Todavia, em Porto Rico e nas Ilhas Virgens, a concha-rainha está regulamentada sob os auspícios do Conselho Caribenho de Manejo da Pesca (CFMC).[43]
Em 1990, a Convenção para a Proteção e Desenvolvimento do Ambiente Marinho da Região do Caribe (Convenção de Cartagena) incluiu a concha-rainha no Anexo II de seu Protocolo Sobre Áreas Especialmente Protegidas e Vida Selvagem (protocolo SPAW) como uma espécie que pode ser utilizada racionalmente e de modo sustentável, e que requer medidas de proteção.[43] Isto levou os norte-americanos a proporem a adição desta espécie no Apêndice II da CITES em 1992, e Eustrombus gigas tornou-se o primeiro produto de pescaria de larga escala a ser regulamentado pela CITES.[43] Desde 1995, a CITES tem revisado o status biológico e comercial da concha-rainha através de seu sistema de Revisão de Comércio Significativo (Significant Trade Review, em inglês). Este sistema é utilizado quando existe preocupação quanto aos níveis de comércio de espécies presentes no Apêndice II. Baseado na revisão de 2003,[51] a CITES recomendou que todos os países proibissem a importação da concha-rainha de Honduras, Haiti e da República Dominicana (veja Standing Committee Recommendations da CITES[58]). E. gigas continua disponível em outros países caribenhos, incluindo Jamaica e as ilhas Turcas e Caicos, que possuem um eficiente manejo de sua pescaria.[43]