| Memórias Póstumas de Brás Cubas | |
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Volume dedicado pelo próprio autor à Fundação Biblioteca Nacional |
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| Autor (es) | Machado de Assis |
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| Editora | Tipografia Nacional |
| Lançamento | 1881 |
| Este artigo é parte da série Trilogia Realista de Machado de Assis |
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| Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) Quincas Borba (1891) Dom Casmurro (1899) Ver também: Realismo no Brasil |
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Memórias Póstumas de Brás Cubas é um romance escrito por Machado de Assis, desenvolvido em princípio como folhetim, de março a dezembro de 1880, na Revista Brasileira, para, no ano seguinte, ser publicado como livro, pela então Tipografia Nacional.
O livro marca um tom cáustico e novo estilo na obra de Machado de Assis, bem como audácia e inovação temática no cenário literário nacional, que o fez receber, à época, resenhas estranhadas. Confessando adotar a "forma livre" de Laurence Sterne em seu Tristram Shandy (1759-67), ou de Xavier de Maistre, o autor, com Memórias Póstumas, rompe com a narração linear e objetivista de autores proeminentes da época como Flaubert e Zola para retratar o Rio de Janeiro e sua época em geral com pessimismo, ironia e indiferença — um dos fatores que fizeram com que fosse amplamente considerada a obra que iniciou o Realismo no Brasil.[1][2][3]
Memórias Póstumas de Brás Cubas retrata a escravidão, as classes sociais, o cientificismo e o positivismo da época, chegando a criar, inclusive, uma nova filosofia, mais bem desenvolvida posteriormente em Quincas Borba (1891) — o Humanitismo, sátira à lei do mais forte. Críticos escrevem que, com esse romance, Machado de Assis precedeu elementos do Modernismo e do realismo mágico de escritores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar, e, de fato, alguns autores chamam-na "primeira narrativa fantástica do Brasil".[4] O livro influenciou decisivamente escritores como John Barth, Donald Barthelme e Ciro dos Anjos e é notado como uma das obras mais revolucionárias e inovadoras da literatura brasileira. Mesmo depois de mais de um século de sua publicação original, ainda tem recebido inúmeros estudos e interpretações, adaptações para diversas mídias e traduções para outras línguas.
Índice |
Narrado em primeira pessoa, seu autor é Brás Cubas, um "defunto-autor", isto é, um homem que já morreu e que deseja escrever a sua autobiografia. Nascido numa típica família da elite carioca do século XIX, do túmulo o morto escreve suas memórias póstumas começando com uma "Dedicatória": Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas. Seguido da dedicatória, no outro capítulo, "Ao Leitor", o próprio narrador explica o estilo de seu livro, enquanto o próximo, "Óbito do Autor", começa realmente com a narrativa, explicando seus funerais e em seguida a causa mortis, uma pneumonia contraída enquanto inventava o "emplastro Brás Cubas", panacéia medicamentosa que foi sua última obsessão e que lhe "garantiria a glória entre os homens". No Capítulo VII, "O Delírio", narra o que antecedeu ao óbito.
No Capítulo IX, "Transição", principiam propriamente as memórias. Brás Cubas começa revendo a própria infância de menino rico, mimado e endiabrado: desde cedo ostentava o apelido de "menino diabo" e já dava mostras da índole perversa quebrando a cabeça das escravas quando não era atendido em algum querer ou montando num dos filhos dos escravos de sua casa, o moleque Prudêncio, que fazia de cavalo. Aos dezessete anos, Brás Cubas apaixona-se por Marcela, "amiga de rapazes e de dinheiro",[5] prostituta de luxo, um amor que durou "quinze meses e onze contos de réis",[6] e que quase acabou com a fortuna da família.
A fim de se esquecer dessa decepção amorosa, o protagonista foi enviado a Coimbra, onde se formou em Direito, após alguns anos de boêmia desbravada, "fazendo romantismo prático e liberalismo teórico".[7] Retorna ao Rio de Janeiro por ocasião da morte da mãe. Depois de namorar inconseqüentemente Eugênia, "coxa de nascença",[8] filha de D. Eusébia, amiga pobre da família, o pai planeja induzi-lo na política através do casamento e encaminha o relacionamento do filho com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, que apadrinharia o futuro genro. Porém Virgília prefere casar-se com Lobo Neves, também candidato a uma carreira política. Com a morte do pai de Brás Cubas, instaura-se um conflito entre ele e sua irmã, Sabina, casada com Cotrim, por conta da herança.
Quando Virgília reaparece, anunciada pelo primo Luís Dutra, reencontra-se com Brás Cubas e tornam-se amantes, vivendo no adultério a paixão que não tiveram quando noivos. Virgília engravida, no entanto a criança morre antes de nascer. Para manter discreta sua relação amorosa, Brás Cubas corrompe Dona Plácida, que por cinco contos de réis aceita figurar-se como moradora de uma casinha na Gamboa, que na verdade serve de encontro entre os amantes. Então segue-se o encontro do protagonista com Quincas Borba, amigo de infância que agora miserável lhe rouba o relógio, devolvendo-lhe depois. Quincas Borba, filósofo doido, apresenta ao amigo o Humanitismo.
Perseguindo a celebridade ou procurando uma vida menos tediosa, Brás Cubas torna-se deputado, enquanto Lobo Neves é nomeado presidente de uma província e parte com Virgília para o Norte, porquanto que termina a relação dos amantes. Sabina arranja uma noiva para Brás Cubas, a Nhã-Loló, sobrinha de Cotrim, de 19 anos, mas ela morre de febre amarela e Brás Cubas torna-se definitivamente um solteirão. Tenta ser ministro de estado mas fracassa; funda um jornal de oposição e fracassa. Quincas Borba dá os primeiros sinais de demência. Virgília, já velha e desfigurada em sua beleza, solicita a ele o amparo à indigência de Dona Plácida, que morre em seguida. Morrem também Lobo Neves, Marcela e Quincas Borba. Eugênia é encontrada num cortiço. A última tentativa de glória, portanto, é o "emplasto Brás Cubas", remédio que curaria todas as doenças; ironicamente, numa de suas saídas à rua para cuidar de seu projeto, molha-se na chuva e apanha uma pneumonia, da qual vem a falecer, aos 64 anos. Virgília, acompanhada do filho, vai visitá-lo na cama e, após longo delírio, morre assistido por alguns familiares. Depois de morto, começa a contar, de trás para frente, a história de sua vida e escreve assim as últimas linhas do capítulo derradeiro:
O livro possui os seguintes personagens:[11]
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"Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. Dos que então fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e diferente páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. E claro que, em nenhum caso, lhes tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu tempo." |
| —Apresentação de Machado de Assis a uma reedição de Helena.[12] |
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"O tom cáustico do livro o afastava muito dos exemplos nacionais de idealização romântica, enquanto seu humorismo ziguezagueante, a sua estrutura insólita impediam qualquer identificação com os modelos naturalistas. |
| —José Guilherme Merquior, 1972.[13] |
A crítica considera Memórias Póstumas de Brás Cubas o romance que introduziu o Realismo na literatura brasileira.[2][3] De fato, ao lado de outras obras como Ocidentais (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896) e Páginas Recolhidas (1899), este livro foi também um divisor de águas na própria obra de Machado de Assis,[14] aquele que iniciou a sua carreira madura,[15] como o próprio autor reconhece na citação ao lado numa reedição tardia de Helena.
O gênero é realista por criticar com ironia e pessimismo as condições da época, no entanto não está isento de resíduos românticos presentes nos romances, nas paixões e nos amores de Brás Cubas,[16] ainda que o sonho de relações e casamentos perfeitos e a tensão bem x mal, herói x vilão—situações tão convencionais à ficção romanesca—não exista e as personagens ajam calculadamente por interesse na obtenção de "status", na ascensão social através do casamento,[17] como quando o pai de Brás quer que ele se case com Virgília, filha do Conselheiro Dutra, político proeminente. E mesmo assim, Machado não compactua com o esquematismo determinista dos realistas, nem procura causas muito explícitas ou claras para a explicação das personagens e situações.[18] O fato do narrador tentar relatar suas memórias e recriar o passado faz com que o romance também se enquadre em certos elementos do romance impressionista.[17]
Dois outros gêneros significativos em Memórias Póstumas são as antecipações modernas da obra—a estrutura fragmentária não-linear, o gosto pelo elíptico e alusivo e a postura metalinguística de quem escreve e se vê escrevendo (Brás Cubas no início declara explicitamente basear-se em Laurence Sterne).[17] O outro elemento, a fantasia, é encontrada em duas situações: Brás Cubas, mesmo morto e enterrado, ainda assim escreve sua autobiografia e, no Capítulo VII, tem um delírio em que viaja montado num hipopótamo e encontra-se com Pandora,[19] que é interpretado como uma forma de mostrar que o ser humano nada mais é do que um verme diante da Natureza.[20] De fato, certos autores referem-se a esta obra como "a primeira narrativa fantástica do Brasil".[4] O caráter fantástico e realista, cômico e sério, e que também mistura cartas e novelas a uma trama global, além de não haver nenhum enobrecimento dos personagens e de suas ações, deu margem a José Guilherme Merquior escrever que o verdadeiro gênero de Memórias Póstumas de Brás Cubas seria o cômico-fantástico, também conhecido como literatura menipéia.[21]
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"A frase machadiana é simples, sem enfeites e os períodos em geral são curtos, as palavras muito bem escolhidas e não há vocabulário difícil [...], mas com esses recursos limitados Machado consegue um estilo de extraordinária expressividade, com um fraseado de agilidade incomparável." |
| —Francisco Achcar.[22] |
Memórias Póstumas de Brás Cubas marca um momento no cenário literário nacional em que Machado de Assis rompe com duas tendências literárias dominantes de seu tempo: a dos realistas que seguiam a teoria de Flaubert, do "romance que narra a si próprio" e que apaga o narrador atrás da objetividade da narrativa; e a dos naturalistas que, na esteira de Zola, pregavam o "inventário maciço da realidade", observada nos menores detalhes.[23] Ao invés disso, Machado de Assis constrói um livro em que cultiva o incompleto, o fragmentário, intervindo na narrativa para conversar diretamente com o leitor e comentar o próprio romance e suas personagens e fatos.[23]
Tornou-se comum atribuir à leitura do livro um caráter de diversão e prazer por detrás de sua perspectiva desencantada.[4] Entre seus traços, destacam-se os do universalismo, psicologismo, de arquétipos e o uso de um estilo "enxuto" por primar "pelo equilíbrio, pela disciplina clássica, pela correção gramatical e pela concisão, pela economia vocabular".[24] Assim, Machado seria sóbrio e parcimonioso, ao contrário de Castro Alves, José de Alencar e Rui Barbosa que abusariam imoderamente do adjetivo e do advérbio.[24] De fato, Francisco Achcar escreve que o livro é sem vocabulário difícil e que "alguma dificuldade que pode ter um leitor de hoje se deve ao fato de que certas palavras caíram em desuso".[25] A linguagem de Memórias Póstumas de Brás Cubas, contudo, não é simétrica e mecânica, mas possui um ritmo.[24]
O livro é permeado por intertextualidade e ironias. O segundo recurso logo nota-se na "Dedicatória" de Brás Cubas ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver. A ironia é vista como uma forma de "revolta pela vida" usada por Machado para fazer rir, quando como por exemplo Brás Cubas escreve: a sabedoria humana não vale um par de botas curtas [...] Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca à personagem que era coxa de nascença, num célebre exemplo de humor negro.[26] O primeiro recurso, por sua vez, refere-se às referências machadianas aos estilos de outros grandes autores do Ocidente: "Na maioria dos casos, essas referências são implícitas, só podem ser percebidas por leitores familiarizados com as grandes obras da literatura."[27] Brás Cubas, por exemplo, refere-se no início do livro à Xavier de Maistre e depois a obras como a Suma Teológica.[28] Por conta disso os críticos notam que o estilo machadiano é "culto" por "fazer uso da cultura e sua compreensão aprofundada exige cultura da parte do leitor."[29] Para saber mais sobre as intertextualidades no livro, vá à seção Influências literárias abaixo.
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"Há na alma deste livro, por mais risonho que pareça, um sentimento amargo e áspero, que está longe de vir dos seus modelos. É taça que pode ter lavores de igual escola, mas leva outro vinho. Não digo mais para não entrar na crítica de um defunto, que se pintou a si e a outros, conforme lhe pareceu melhor e mais certo." |
| —Machado de Assis, 1899, no prólogo da 4ª edição.[30] |
Entre as diversas interpretações que se faz do livro, temos a sociológica. Sob esse parâmetro, Memórias Póstumas é um livro sobre seu tempo e costumes. Críticos que analisam características sociais da trama, destaque para Roberto Schwarz e Alfredo Bosi, notam a volubilidade do narrador da elite e analisam uns e outros personagens de acordo com a sua posição social,[31] além de centrarem-se no contexto ideológico do Segundo Império.[32] Contexto, datas e ambientação são informações importantes para esses críticos.[33] Entre as óticas sociológicas destaca-se as análises de Brás Cubas, homem de família abastada que desde a infância era mimado, uma personagem "beneficiária arrogante ainda que também humilhada da situação propiciada pela escravidão e pelas enormes desigualdades sociais."[34] Assim, o livro é visto como uma obra que assume o "ponto de vista da melancolia, da ruína e da morte ante a situação, rindo de quase tudo e ridicularizando também os dramas dessas frações beneficiárias, que, contudo, aparecem como comédia ou ópera-bufa."[34] Seria um beneficiário cínico que, como ele mesmo escreve no capítulo final, não trabalhou, não pagou o pão com o suor do rosto,[35] em alusão à Gênesis: "No suor do teu rosto comerás o teu pão",[36] mostrando que a propriedade herdada era muito importante para as personagens e a época, daí a luta constante entre ele e sua irmã Sabina e o cunhado Cotrim em ficar com o dinheiro do pai recém-morto e também da preocupação da divisão do espólio após a morte do próprio narrador.[37] Schwarz refere-se à obra como um retrato do liberalismo de fachada que convivia com o regime escravocata.[38]
Os críticos sociológicos também acreditam que o fato do protagonista ser morto o faz narrar sua vida com "total isenção" e inteiramente "desvinculado de qualquer relação com a sociedade" e, neste descomprometimento propiciado pela morte, possui o poder de dizer, falar, zombar e criticar quem e o que quiser.[39] Outros críticos que também se atém na temática da morte são os preocupados com interpretações cognitivas, existenciais ou psicológicas, que centram-se na figura do humorista melancólico e no discurso do homem subterrâneo, solitário e reflexivo.[32] Isso não quer dizer que muitas vezes uma interpretação englobe outras. Numa análise sócio-psicológica, por exemplo, críticos têm citado a trágica cena do Capítulo LXVIII (68) em que Prudêncio, o moleque negro que na infância de Brás era seu cavalo de montar, quando fica mais velho e livre, compra um escravo para si próprio—cena que é considerada uma das páginas de ficção mais perturbadoras já escritas sobre a psicologia do escravismo.[40] Além disso, é interpretada como uma visão cética quanto aos malefícios da escravidão: violência gera violência e ao oprimido não basta a liberdade.[41] É estudado também o papel não só dos escravos mas de pessoas oprimidas na obra—como Eugênia e Dona Plácida, brancas e livres mas que não deixam de ser humilhadas e ingenuamente dominadas.[42]
A crítica literária não deixa de analisar o caráter filosófico do romance, com o seu Humanitismo e vê que o sarcasmo de Brás Cubas, diante do cientificismo propiciado por Charles Darwin e que no Brasil de 1880 ainda se "dava por coveiro da filosofia", reabre a interrogação metafísica e a perplexidade radical ante o ser humano.[43] De fato, esta filosofia é uma sátira ao positivismo de Comte, ao cientificismo do século XIX e à teoria de seleção natural.[44] Assim, um dos temas do livro, que concerne essa nova filosofia inventada pelo autor, é o de que o homem é sujeito à natureza e seus caprichos e não "soberano invulnerável da criação."[43] Surge pela primeira vez na prosa machadiana no Capítulo CLVII (157) de Memórias, recebendo um adendo no Capítulo CXLI (141), para comentar uma briga de cães. A partir disso, as ideias humanitistas acompanham Brás Cubas até o final do livro; este compreende a teoria, ao contrário do Rubião de Quincas Borba, onde a filosofia fictícia recebe maior explicação e destaque. Por outro lado, vasculhando outros temas, críticos psicanalistas têm notado as cenas de nervoso na obra e não separam a relação que elas tem com a própria saúde do autor, que se acredita ter sido epiléptico, embora não gostasse de tornar isso público, o que o teria feito omitir a palavra "epilepsia" de uma das edições ulteriores, mas que deixaria escapar na edição primeira ao descrever o padecimento da personagem Virgília diante da morte de Brás Cubas: Não digo que se carpisse; não digo que se deixasse rolar pelo chão, epiléptica..., que fora substituída por: Não digo que se carpisse, não digo que se deixasse rolar pelo chão, convulsa...[45][46] As interpretações sobre a obra foram sendo adquiridas e apresentadas por críticos diferentes ao longo do tempo; Alfredo Bosi escreveu que nenhuma interpretação sozinha, no entanto, seria suficiente para "compreender a densidade do olhar machadiano".[32]
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"Comparado ao de Pascal, o mundo de Machado é um mundo sem Paraíso. De onde uma insensibilidade incurável a todas as explicações que baseiam no pecado e na queda a ordem em que foram postas as coisas no mundo. Seu amoralismo tem raízes nessa insensibilidade fundamental." |
| —Sérgio Buarque de Hollanda, 1944.[47] |
Os escritores Laurence Sterne, Xavier de Maistre e Almeida Garret constituem a gama de autores que mais influenciaram esta obra, sobretudo os capítulos 55 e 139 pontilhados, ou os capítulos-relâmpago (como 102,107,132 ou 136) e o garrancho da assinatura de Virgília no capítulo 142 das Memórias Póstumas de Brás Cubas.[48] Quando Brás Cubas diz que adotou a "forma livre" de Sterne, está explicitando que Machado de Assis foi influenciado pela narrativa digressiva da obra Tristram Shandy.[49] O crítico francês Gérard Genette, por exemplo, escreve que da mesma forma que Virgílio contou a estória de Enéias à forma de Homero, Machado contou a estória de Brás à forma de Sterne.[50] José Guilherme Merquior acrescenta o fato de que a Memórias, contudo, possui uma fantasia não presente em Sterne e um "humorismo sardônico" oposto ao humorismo "simpático" e "sentimental" de Tristam Shandy, e que as obras Viagem à Roda do Meu Quarto (1795), e Viagens na Minha Terra (1846) foram as outras leituras pretéritas e decisivas para a elaboração de Memórias.[13] Merquior também cita outras possíveis influências, como a mitologia clássica, Luciano de Samósata, Fontenelle (especialmente seu Dialogues des Morts, 1683), Fénelon e o Operrete Morali (1826) de Leopardi, que fariam Memórias Póstumas se aproximar do gênero cômico-fantástico, também conhecido como literatura menipéia.[21] No capítulo XLIX, cita o otimista dr. Pangloss, da obra filosófica Cândido de Voltaire, que dizia que "o nariz foi criado para uso dos óculos", e faz com que Brás conclua que a visão de Pangloss está errada pois a explicação sobre o sentido de tal órgão estava na observação do hábito do faquir, que "gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste" e "perde o sentimento das cousas externas, embelza-se no invisível, apreende o impalpável, desvincula-se da Terra, dissolve-se, eteriza-se", terminando com a sugestão política de que a necessidade e poder do homem de contemplar o seu próprio nariz são modo de obter "a subordinação do universo a um nariz somente".[51]
De fato, o livro está permeado de influências filosóficas e, inclusive, alguns o consideram o mais filosófico da obra machadiana.[52] Um dos filósofos que faziam parte das leituras freqüentes do autor era Pascal, cujo prenome, Blaise, teria sido traduzido por Brás, o protagonista do livro.[53] A "sensação dupla e indefinível", de céu e inferno, tão exposta por Pascal em Pensées, é logo referida por Brás Cubas no Capítulo XCVIII quando ele está diante de Nhã-loló.[53] Pascal também escrevia que o homem está sempre diante do tudo e do nada, e nas Memórias Póstumas o tema da precariedade da condição humana é expresso pela miséria e pela temporalidade da vida.[54] Embora alguns afirmem que foi com Pascal que Memórias Póstumas adquiriu um tom cético,[55] os estudiosos não deixam de citar Schopenhauer como a principal influência filosófica do livro.[49] Nele Machado teria encontrado visões do pessimismo e ainda desdobrado sua escrita em mitos e metáforas acerca de uma "inexorabilidade do destino".[56] Raimundo Faoro, sobre a obra do filósofo alemão na obra machadiana, argumentou que o autor brasileiro havia realizado uma "tradução machadiana da vontade de Schopenhauer".[57] Estudiosos notam que Machado de Assis conseguiu utilizar a filosofia de Schopenhauer em Memórias Póstumas de uma forma muito profunda.[58] Segundo este filósofo, o universo é a vontade, cega, obscura e irracional de viver e a lei do real não é nenhum logos harmonioso, mas sim um conflitivo querer, fatalmente doloroso, porque necessariamente insatisfeito; "por isso, a dor é a essência das coisas, e só no ideal de renúncia aos desejos se pode colher alguma felicidade."[59] Então, O mundo como vontade e representação (1819), para alguns, encontra seu cume alto em Machado de Assis com os desejos frustrados do personagem Brás Cubas.[60]
Memórias Póstumas de Brás Cubas influenciou decisivamente os escritores John Barth e Donald Barthelme, que inclusive reconheceram a influência.[61][62] A Ópera Flutuante, primeiro livro escrito pelo primeiro dos dois, foi influenciado pela técnica de "jogar livremente com as idéias" de Tristram Shandy e de Memórias Póstumas.[63]
Por sua vez, o romance O amanuense Belmiro, de Ciro dos Anjos, tem sido freqüentemente relacionado pela crítica com Memorial de Aires e Memórias Póstumas.[64] Como escreve um dos críticos, O amanuense é "destinado ao registro de impressões autobiográficas de um obscuro funcionário estadual [...] possuindo muitas passagens que lembram as meditações irônicas e pessimistas de Brás Cubas."[65] Ciro via Machado de Assis como seu mestre literário e sua obra é toda permeada pela tentativa de alcançar o estilo dele.[66]
Os estudiosos também traçam diálogos entre este livro e outros da literatura nacional, como Grande Sertão: Veredas (1956), de Guimarães Rosa, que retoma a "viagem de memória" presente também em Dom Casmurro, além de seus textos descreverem doenças mentais como os de Machado;[67] e Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade, obra capital do modernismo no Brasil, que é identificado como uma "homenagem" às memórias de Brás Cubas.[4]
Em se tratando ao próprio conjunto de obras do autor, Memórias Póstumas marcou para sempre a escrita de Machado de Assis e propiciou novos significados e estilos e uma temática amadurecida em diversos contos e mais outros quatro romances prestigiados, todos, como as Memórias, compostos em capítulos curtos, todos (a exceção de Quincas Borba) narrados em primeira pessoa e substancialmente ambíguos e ricos em relação a elementos básicos da história.[4] O caráter fantasioso do livro fez com que críticos, sobretudo estrangeiros, afirmassem que ele antecipa elementos literários do realismo mágico de escritores como Jorge Luis Borges e Julio Cortázar,[68] e mesmo alguns temas do existencialismo contemporâneo de Albert Camus e Sartre,[69] como a relação do fato real e imaginário de Brás Cubas e as outras personagens.
Com a publicação do livro, poucos amigos ou colegas noticiaram o volume, publicados na Gazetinha e na Revista Ilustrada, embora ele tenha recebido relativa fama.[4] No entanto, como comparação, no mesmo ano de 1881, O Mulato, de Aluísio de Azevedo, era publicado e provocou polêmica, merecendo mais de duzentos comentários e resenhas por todo o país, contudo sua legilidade era de outra natureza.[70] O caráter inovador do livro machadiano fez estranhar a crítica da época. Em 2 de fevereiro de 1881 um crítico assinando sob o pseudônimo de "U.D.", em que acredita ter sido Urbano Duarte de Oliveira, escreveu que a obra de Machado era falsa, deficiente, sem nitidez, e sem colorido:[71][72]
Capistrano de Abreu, em resenha de sua autoria, perguntava-se: "As Memórias Póstumas de Brás Cubas serão um romance?"[73] E continua:
Macedo Soares escreveu uma carta amigável a Machado notando a analogia do livro com Viagens na Minha Terra de Garret. Em 1899, Machado de Assis respondeu aos comentários de Capistrano e Macedo no prólogo da 4ª edição do livro, escrevendo: "Ao primeiro respondia já o defunto Brás Cubas (como o leitor viu e verá no prólogo que vai adiante) que sim e que não, que era romance para uns e não o era para outros. Quanto ao segundo, assim se explicou o finado: 'Trata-se de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo.' Toda essa gente viajou: Xavier de Maistre à roda do quarto, Garret na terra dele, Sterne na terra dos outros. De Brás Cubas, se pode talvez dizer que viajou à roda da vida."[30]
Silvio Romero não gostou do rompimento de Machado com a linearidade narrativa e com a natureza do enredo tradicional;[74] além disso, o humor machadiano seria "imitação afetada e pouco natural de autores ingleses", particularmente de Sterne.[75] Romero escreveu um livro inteiro sobre o autor, intitulado Machado de Assis: estudo comparativo de literatura brasileira (1897), comentado por Machado numa carta a Magalhães de Azeredo em 1898 como "um éreintement, para não parecer imodesto: a modéstia, segundo ele, é um dos defeitos, e eu amo os meus defeitos, são talvez as minhas virtudes. Apareceram algumas refutações breves, mas o livro aí está, e o editor, para agravá-lo, pôs-lhe um retrato que me vexa, a mim que não sou bonito."[76] Artur Azevedo, sob o pseudônimo de Elói-o-herói, comentou o livro de Romero na A Estação de 15 de dezembro de 1897, não concordando com a visão que o autor transmitia de Machado: "Façam as comparações que quiserem: o glorioso autor das Memórias Póstumas de Brás Cubas é, por enquanto, o primeiro homem de letras que o Brasil tem produzido."[77] Um outro resenhista, mais cedo, à época do lançamento, sob o pseudônimo de Abdiel, em 28 de fevereiro de 1881 escrevia:
Para a crítica moderna especializada, Memórias Póstumas de Brás Cubas é um dos livros mais inovadores de toda a literatura brasileira. De certa forma, constitui um marco decisivo no desenvolvimento da obra de Machado de Assis e na evolução da literatura nacional e, ao mesmo tempo, é considerado o primeiro romance realista e a primeira narrativa fantástica do Brasil.[79] Certos críticos modernos arriscam a dizer também que, por seus temas, influências e conexões com filosofias e ciências vigentes da época, é a primeira obra do Brasil que ultrapassa os limites nacionais, pois é um grande romance universal.[79]
Mesmo críticos mais antigos, como Lúcia Miguel Pereira, que também foi biógrafa do autor, escreviam que tal inovação foi o motivo pelo qual fez o livro ser tão impactante na época de sua publicação: "Aqui, ousadamente, varriam-se de um golpe o sentimentalismo, o moralismo superficial, a fictícia unidade da pessoa humana, as frases piegas, o receio de chocar preconceitos, a concepção do predomínio do amor sobre todas as outras paixões; afirmava-se a possibilidade de construir um grande livro sem recorrer à natureza, desdenhou-se a cor local, colocou-se o autor pela primeira vez dentro das personagens. [...] A independência literária, que tanto se buscara, só com este livro foi selada. Independência que não significa, nem poderia significar, auto-suficiência, e sim o estado de maturidade intelectual e social que permite a liberdade de concepção e expressão. Criando personagens e ambientes brasileiros, bem brasileiros. Machado não se julgou obrigado a fazê-los pitorescamente típicos, porque a consciência da nacionalidade, já sendo nele total, não carecia de elementos decorativos. [...] e por isso pode entre nós ser universal sem deixar de ser brasileiro."[80]
Em seu aclamado História Concisa da Literatura Brasileira (1972), o crítico Alfredo Bosi não deixou de notar o prestígio e a revolução da obra para a literatura mundial: "A revolução dessa obra, que parece cavar um fosso entre dois mundos, foi uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações românticas e ferindo no cerne o mito do narrador onisciente, que tudo vê e tudo julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto e desfrutador Brás Cubas."[81] Notando a opção por parte de Machado de Assis em romper com as formas de se fazer literatura em seu tempo com a observação de Bosi em relação às idealizações românticas e ao "narrador onisciente", vemos a criação de um estilo próprio e único que o autor galgou com a realização dessa obra, um estilo tipicamente machadiano.[24]
Da mesma forma, a ensaísta norte-americana Susan Sontag escreveu em 1990 que "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Epitaph of a small winner) é pelo visto um desses livros arrebatadoramente originais, radicalmente céticos, que sempre impressionarão os leitores com a força de uma descoberta particular. É pouco provável que soe como um grande elogio dizer que esse romance, escrito mais de um século atrás, parece, bem... moderno. [...] Sem dúvida, é um dos livros mais divertidamente não provincianos já escritos. E amar esse livro é tornar a si mesmo um pouco menos provinciano a respeito da literatura, a respeito das possibilidades da literatura."[82]
Publicado a princípio "aos pedaços",[30] como escreve o próprio Machado, ou seja, em folhetim, pela Revista Brasileira de março à dezembro de 1880 até ser editado definitivamente em 1881 pela Tipografia Nacional, cerca de três mil a quatro mil exemplares foram impressos à época, sem contar os da revista.[83] O volume possui 160 capítulos de extensões variáveis.[1]
De acordo com o próprio Machado, à época da 4ª edição do livro, o volume publicado não recebeu grandes modificações ou retificações. Os fragmentos publicados na Revista Brasileira foram corrigidos em vários lugares pelo autor. Quando teve que o rever para a terceira edição, "emendei alguma coisa e suprimi duas ou três dúzias de linhas. Assim composto, sai novamente à luz esta obra que alguma benevolência parece ter encontrado no público", escreveu ele.[30] As modificações mais significativas que ocorreram da passagem de folhetim para livro publicado tenham sido somente a introdução de um preâmbulo, assinado por Brás Cubas e denominado "Ao Leitor", e substituição de uma epígrafe retirada de uma comédia de Shakespeare pela dedicatória ao primeiro verme que roeu as frias carnes do meu cadáver.[84] Também acredita-se que o principal trabalho de revisão de Machado de Assis foi focar-se no início e no final do livro, as duas partes onde notam-se "recursos criativos destinados a abalar várias das convenções vigentes na prosa de ficção da época."[84]
O primeiro país estrangeiro a publicá-lo foi a França, em 1911, traduzido por Adrien Delpec, por conta do contrato de Machado com o editor Baptiste Louis Garnier, dono da Livraria Garnier, que publicava seus livros tanto no Rio de Janeiro quanto em Paris.[85]
O romance tem sido traduzido para outras línguas desde sua primeira publicação em português (Fonte: Itaú Cultural):[86]
| Ano | Língua | Título | Tradutor(es) | Editora |
|---|---|---|---|---|
| 1911 1948 2005 |
Francês | Mémoires Posthumes de Braz Cubas Mémoires d'Outre-tombe de Braz Cubas Mémoires d'Outre-tombe de Braz Cubas |
Adrien Delpec Chadebec de Lavalade Chadebec de Lavalade |
Paris: Livraria Garnier Paris: Rd. Émile-Paul frères Paris: Métailié |
| 1919 1953 |
Italiano | Memoire Postume di Braz Cubas Memoire dall'Aldilá |
Giuseppe Alpi Laura Marchiori |
Lanciano Milão: Rizzoli |
| 1940 2003 |
Espanhol | Memórias Póstumas de Brás Cubas Memórias Póstumas de Brás Cubas |
Francisco José Bolla José Ángel Cilleruelo |
Buenos Aires: Club del Libro Madrid: Alianza Editorial |
| s/d 1953 1997 2002 |
Inglês | Epitaph of a Small Winner Epitaph of a Small Winner Epitaph of a Small Winner The Posthumous Memoirs of Bras Cubas |
William L. Grossman William L. Grossman Trafalgar Square Gregory Rabassa |
Nova York: Noonday Londres: W.H. Allen Londres: Trafalgar Square Oxford: Oxford University Press |
| 1956 | Dinamarquês | En Vranten Herres Betragtninger | Erick Bach-Pedersen | Copenhagen: Danske Bogsamleres Klub |
| 1957 | Servo-croata | Posmrtni Zapisi Brasa Cubasa | Josip Tabak | Sarajevo: Narodna Prosvjeta |
| 1957 1985 1987 |
Portugal | Memórias Póstumas de Brás Cubas | s/t | Lisboa: Bertrand Porto: Lello & Irmão Lisboa: Dinalivro |
| 1967 1979 2003 |
Alemão | Postume Erinnerungen des Brás Cubas Postume Erinnerungen des Bras Cubas Die Nachträglichen Memoiren des Bras Cubas |
Erhard Engler Erhard Engler Wolfgang Kayser |
Berlim: Rütten & Loening Frankfurt: Suhrkamp Zurique: Manesse Verlag |
| 1986 | Romeno | Memoriile Postume ale lui Brás Cubas | A editora | Bucuresti: Minerva, Bucuresti |
| 1996 | Tcheco | Posmrtné Paměti Bráse Cubase | Sárka Grauová | Praga: Torst |
| s/d | Neerlandês | Laat Commentaar van Bras Cubas | A. Mastenbroek jr Bussum | G.J. A |
| 2001 | Catalão | Memòries pòstumes de Brás Cubas | Xavier Pàmies | Barcelona: Quaderns Crema |
A obra já teve três versões cinematográficas. A primeira, rodada em modo completamente experimental, dirigida por Fernando Cony Campos em 1967, chamava-se Viagem ao Fim do Mundo.[87] A segunda, em 1985, já apresenta um caráter estético mais ousado e foi filmada por Julio Bressane, com Luiz Fernando Guimarães no papel de Brás Cubas.[88] E em 2001, surgiu uma nova produção, embora tivesse sido filmada nos anos 90: essa terceira versão, Memórias Póstumas, foi mais fiel à obra, tendo sido dirigida por André Klotzel, com Reginaldo Faria atuando como Brás Cubas após os 60 anos até ser defunto e Petrônio Gontijo sendo Brás Cubas na sua juventude.[89]
O livro também recebeu uma versão em paródia, Memórias Desmortas de Brás Cubas, de Pedro Vieira, no qual o emplastro transforma Brás Cubas em um zumbi.[90]
Em agosto de 2010, para integrar a série Grandes Clássicos em Graphic Novel da Editora Desiderata, do grupo Ediouro, que já possuía adaptações de livros como O Alienista, O Pagador de Promessas e Triste Fim de Policarpo Quaresma, Memórias Póstumas foi adaptada pelo desenhista João Batista Melado e o roteirista Wellington Srbek para o formato de HQ, cujo prefácio foi assinado por Moacyr Scliar.[91]